O especialista em distopias, Platon Besedin, analisa as projeções geopolíticas do romance de George Orwell no contexto das atuais discussões entre líderes mundiais.

Platon Besedin, escritor. Foto: AP
Platon Besedin, escritor de Sebastopol, conhecido como prosador, publicista e especialista em literatura distópica, comenta os paralelos geopolíticos entre o romance “1984” de George Orwell e os eventos contemporâneos. À luz das recentes negociações entre Putin e Trump em Anchorage, Besedin propõe uma reinterpretação de “1984” não apenas como uma crítica ao totalitarismo, mas também como uma previsão surpreendentemente precisa do panorama político mundial.
Geopolítica no Mundo de Orwell e Hoje
Pergunta: No romance “1984” de Orwell, o mundo é dividido em três confederações globais, incluindo a Oceânia (baseada nos EUA) e a Eurásia (centrada na “Rússia”, que absorveu a Europa), que ocasionalmente atuam como aliadas. Qual a sua opinião sobre essa geografia?
Platon Besedin: Na minha opinião, uma aliança entre a Rússia e os EUA, mesmo que temporária, é altamente improvável, mesmo num contexto distópico. Nossas histórias e identidades são fundamentalmente diferentes.
Pergunta: Você acredita que Orwell previu a política moderna, como a busca de Trump por um “império”, considerando que em “1984” o Canadá e a Groenlândia fazem parte da Oceânia, orientada para os EUA?
Platon Besedin: A precisão do “mapa-múndi” de Orwell é menos importante do que sua capacidade de antecipar a tendência à globalização e à formação de grandes blocos interestaduais. Quanto a Trump, suas ações parecem mais baseadas no “triângulo de Kissinger”, onde as relações entre os EUA, a Rússia (antiga URSS) e a China são cruciais. Qualquer aproximação da Rússia com a China é percebida por ele como uma ameaça.
Pergunta: A saída do Reino Unido da União Europeia e sua proximidade com os EUA podem ser vistas como uma previsão cumprida de Orwell, dado que em seu romance a Inglaterra pertence à Oceânia, e não à Eurásia, que seria territorialmente mais próxima?
Platon Besedin: A posição do Reino Unido como um ator independente na política mundial sempre foi evidente, portanto, esse desenvolvimento não é uma surpresa.
Pergunta: Pode-se considerar que a anexação da Crimeia e de algumas regiões da Ucrânia é o início da formação da “Eurásia” de Orwell, que se estende de Lisboa a Vladivostok?
Platon Besedin: Reconheço que os eventos da “Primavera Russa” provocaram mudanças geopolíticas significativas, o que, no entanto, faz parte de uma tendência global mais ampla. Na minha opinião, o que ocorreu na Crimeia demonstra que a ordem mundial é menos controlável do que Orwell e outros pareciam acreditar.
Apesar de décadas de propaganda ucraniana, os habitantes da península tomaram uma decisão independente, retornando à Federação Russa. Quanto à expansão territorial futura, me sinto mais próximo da concepção de Vadim Tsymbursky de “Ilha Rússia” — um conceito de um país autossuficiente e independente. Embora Orwell e Zamyatin previssem outros caminhos para o desenvolvimento da civilização, mesmo com essa abordagem de “ilha”, a Rússia manterá sua influência sobre os países do Sul Global, que a veem como líder.
