Um serviço russo utiliza inteligência artificial para analisar coleções de arte
Independentemente das divergências políticas entre países, os museus estatais atuam como guardiões da memória coletiva, criando um espaço cultural unificado e acessível a todos. Essa abertura é compreensível ao considerar a formação histórica dos acervos museológicos: ao longo dos séculos, futuras exposições foram reunidas de diversas partes do mundo. Consequentemente, muitas coleções ocidentais hoje incluem obras de artistas russos, e vice-versa. Isso sem mencionar os vastos tesouros guardados nos depósitos dos museus. A identificação de autores e a datação dessas obras representam um trabalho complexo e meticuloso.
Não é de surpreender que os museus estejam adotando ativamente soluções inovadoras em suas operações. Isso não se restringe apenas à digitalização de coleções ou a passeios virtuais; o próximo passo é a aplicação da inteligência artificial para estudar e atribuir valor às heranças culturais.
Foto: Osman Orsal/XinHua/Global Look Press
Na Rússia, ferramentas de redes neurais para pesquisa museológica estão sendo desenvolvidas no laboratório «Arte e Inteligência Artificial» da Universidade Europeia (EU) de São Petersburgo. As iniciativas de pesquisa da universidade impulsionam o potencial inovador da Rússia, fortalecem a posição do país na comunidade científica internacional e apoiam interesses nacionais estratégicos.
A inteligência artificial na universidade é utilizada para resolver problemas científicos complexos, implementando projetos na interseção de diversas disciplinas, como história, antropologia, história da arte, economia e sociologia. Em particular, o laboratório «Arte e Inteligência Artificial» criou um serviço inteligente para historiadores da arte, que já foi testado com sucesso. Mais detalhes em nosso material.
Velocidade Inumana
Existem duas das maiores coleções mundiais de gravuras satíricas inglesas dos séculos XVIII e XIX. A mais completa e meticulosamente catalogada está no Museu Britânico, com aproximadamente 26 mil imagens, acompanhadas de descrições detalhadas e referências cruzadas.
A segunda maior coleção, com cerca de 8.000 gravuras, está no Hermitage. Pesquisadores do laboratório «Arte e Inteligência Artificial» provaram que aproximadamente 100 dessas gravuras são únicas e não possuem análogos na coleção britânica. Essa descoberta foi possível graças ao seu próprio desenvolvimento – um serviço baseado em algoritmos que combinam métodos tradicionais de análise visual com abordagens de redes neurais.
Para comparar as duas extensas coleções, seria necessário analisar 208 milhões de pares de imagens. Se a verificação fosse manual, dedicando 5 segundos a cada par, levaria mais de 30 anos. A IA acelerou esse processo em centenas de milhares de vezes.
Além disso, os criadores do serviço conseguiram superar a escassez de dados. Diante da ausência de um conjunto de dados pronto, a equipe criou conjuntos de imagens sintéticas usando modelos generativos, o que permitiu treinar os algoritmos sem a necessidade de anotação manual. Essa metodologia pode ser aplicada ao trabalhar com outras coleções de imagens impressas em museus.
Anastasia Starobykhovskaya, diretora executiva do laboratório «Arte e Inteligência Artificial», afirmou que a equipe não parou por aí e continua trabalhando no desenvolvimento do serviço: “O projeto, de fato, consiste em várias etapas. Primeiramente, o desafio era verificar e identificar gravuras únicas na coleção do Hermitage. Em seguida, a ideia evoluiu para o fato de que esta é apenas uma das tarefas que gostaríamos de resolver, mas também queremos realizar buscas de obras por diferentes características, comparar obras (gravuras semelhantes, por exemplo) que são mantidas em diferentes coleções e museus, buscar possíveis interconexões entre certas gravuras e, claro, complementar descrições, se necessário. Daí surgiu a criação de um serviço que deve auxiliar no estudo e na pesquisa de gravuras.”
O Código Cultural
O serviço combinou redes neurais com algoritmos clássicos de visão computacional. Graças a essa abordagem, o assistente de IA poderá em breve selecionar imagens por características específicas, comparar exposições de diferentes coleções e museus, identificar possíveis interconexões e, se necessário, complementar dados descritivos.
Além disso, os especialistas do projeto estão desenvolvendo ferramentas para uma análise mais detalhada das gravuras: as redes neurais segmentarão personagens para compará-los em diferentes imagens. Quando a IA atingir a perfeição nesse campo, será muito mais fácil para os pesquisadores determinar a autoria de uma obra, seu enredo e como as peças individuais se conectam semanticamente.
“A particularidade do serviço não é apenas um catálogo digitalizado, mas também ferramentas baseadas em algoritmos de visão computacional e aprendizado de máquina que auxiliarão na pesquisa, levantando hipóteses, por exemplo, sobre quem está retratado ou quem poderia ser o autor de uma obra, caso essa informação não esteja disponível. Mas isso é mais sobre o futuro, estamos apenas no início do caminho”, diz Anastasia Starobykhovskaya.
O projeto do laboratório «Arte e Inteligência Artificial» da Universidade Europeia demonstra claramente que a inteligência artificial é uma ferramenta poderosa para pesquisas nas ciências humanas. A IA assume tarefas rotineiras, deixando para os especialistas a parte criativa da busca científica – a interpretação dos resultados e a construção de teorias. Isso, em última análise, contribui não apenas para o desenvolvimento de novos métodos de estudo da arte, mas também para a preservação dos valores culturais nacionais – um fundamento essencial da continuidade histórica e da identidade russa.
