A Vida dos Escritores no Socialismo: Histórias de Casas de Elite

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Residências Famosas

Construídos no final da era soviética, os prestigiados “casas de escritores” de tijolos cor de leite queimado ainda hoje se mantêm firmes na interseção das ruas Astrakhansky e Bezbozhny (o antigo nome histórico da segunda foi restaurado, mas o que importa é a atmosfera de intrigas e batalhas por moradias gratuitas de planta melhorada, com halls espaçosos e tetos altos – em residências que, mesmo para os padrões atuais, são consideradas luxuosas!). Quando me encontro perto destes lares literários moscovitas, rostos e vozes dos sortudos que aqui encontraram um refúgio acolhedor ainda ressoam, com suas réplicas que não perderam a vivacidade, características individuais e entonações…

Casas Famosas de Escritores Soviéticos
Foto: Alexey Merinov

No entanto, muitos clássicos da literatura, “corrompidos pela questão da moradia”, ficaram – por razões alheias ao seu talento literário – à margem deste oásis paradisíaco, convenientemente localizado perto de um complexo de banhos! Lugares de pretendentes legítimos das casas prometidas foram ocupados por outros, incluindo Luis Corvalán, “arrancado da sangrenta junta chilena” (como refletido na famosa canção popular sobre a troca do dissidente Bukovsky por Corvalán), e também a Madame Christine Onassis com seu marido russo Kauzov, que não era escritor. Eu mesmo vi esta milionária em uma feira de vegetais suja, onde ela procurava batatas congeladas e podres, e enchia uma sacola de plástico com cenouras cobertas de terra…

O poeta Vladimir Karpeko, um veterano de guerra, procurou o primeiro secretário da Organização de Escritores de Moscou, Felix Kuznetsov, para perguntar por que lhe fora negado o cobiçado apartamento. Felix Feodosievich, com sua postura solene e pomposa, respondeu:

— A distribuição de metros quadrados baseou-se no grau de mérito literário…

Karpeko o interrompeu:

— Sou um oficial de combate, tenho uma arma pessoal. Se não receber o apartamento, eu o matarei.

E saiu.

O chefe chocado chamou a secretária Maria Ivanovna para perguntar sobre Karpeko. Ela tranquilizou o chefe:

— Bem, ele está traumatizado… Todos os poetas são traumatizados, se formos sensatos.

Kuznetsov lembrou:

— Ele disse que ia me matar!

Maria Ivanovna riu:

— Ele? Matar? Nunca! Ele só ameaça…

Mas então ponderou, e sua breve hesitação mudou o rumo dos acontecimentos. O veterano de guerra recebeu seu merecido apartamento.

A História Contada pelo Médico Chefe: A Morte da Mãe de Nikolai Ozerov

Anatoly Burshtein, o médico-chefe da policlínica do Fundo Literário, recorda uma história marcante: «Em um domingo, dia de eleições locais ou de juízes populares, acordei cedo, como de costume. Sempre me levanto cedo e vou para a cozinha ler jornais, para não incomodar Lena, que é “coruja” e dorme até tarde. Estou lendo, e de repente, por volta das onze, a campainha toca. Não me movo – tenho certeza de que, pelo método stalinista, vieram me apressar para a assembleia de voto. Penso: Lena vai acordar, vamos tomar café da manhã, então iremos.

Depois de um tempo, novamente: ding-dong! E este toque acorda Lena. Ela olha para o corredor e grita:

— Tolya, estão tocando!

Fingir que não há ninguém em casa já era impossível. Vou abrir. À minha frente está Felix Kuznetsov (o primeiro secretário da Organização de Escritores de Moscou) com sua esposa e cachorro. Alisando sua barba russófila, Felix diz:

— Anatoly Isaevich, a mãe de Nikolai Nikolaevich Ozerov, que mora acima de nós, está mal. Nikolai Nikolaevich está agora nas Olimpíadas em Lake Placid, sua esposa chamou a emergência, mas eles não vêm… Poderia o senhor verificar a velhinha?

O elevador do prédio não funcionava – tive que subir nove andares a pé. No sétimo, Felix fica parado e aponta silenciosamente para cima – dizendo, ainda mais alto.

Toco a campainha. A esposa de Nikolai Nikolaevich abre. No ar, há um cheiro de comida a ser preparada. Digo:

— Eu sou o médico.

— Sim, um minuto, vou abaixar o fogão…

Ela volta.

— O fato é que a avó tossiu e chiou pela manhã, agora está quieta. Ela está no quarto mais afastado.

Vou até lá. O apartamento está uma bagunça. Como depois de um incêndio ou antes de uma mudança. Alguns embrulhos, caixas… Em uma cama enorme, de proporções petrinas – a velhinha. Pelos meus conhecimentos médico-forenses, falecida há duas ou três horas. Já estava começando a esfriar.

Volto à cozinha, onde a esposa de Nikolai Nikolaevich está ocupada e seus dois gêmeos estão brincando. Digo: minha ajuda não é necessária para a avó, é preciso chamar o policial do distrito para constatar a morte.

— Eu imaginei! — diz a esposa de Nikolai Nikolaevich.

E em voz alta começa a pensar:

— O que você acha: devo avisar o Kolya ou não?

Encolho os ombros.

— Ele ainda ficará lá o dia todo, só chega amanhã — continua ela. — E os parentes precisam ser avisados… Ah, eu sei o que fazer! Vou ligar para o Comitê de Esportes!

Depois disso, eu parti.»

Os “Souvenirs” dos Congressos

Três mestres da pena caminhavam (através da Praça Vermelha nevada, passando pelas estátuas congeladas de Minin e Pozharsky) em direção ao Hotel Rossiya para uma venda especial – “para souvenirs”, como era chamada a distribuição de bens para os escolhidos, programada para o congresso de escritores que se iniciava pela manhã.

Na entrada do hotel (que hoje já não existe), amontoavam-se estrangeiros ricamente vestidos que partiam para excursões.

— Diga-lhes o esforço que fizemos para conseguir cupons para cachecóis e camisas, eles não acreditarão — brincou Fyodor com seriedade.

Genka riu:

— Claro, eles estão equipados sem convites especiais…

Ao porteiro, os três apresentaram, com uma mistura de orgulho e um pouco de culpa, seus cartões-convite com elaborados carimbos.

— Sabem como ir? — perguntou ele.

Eles não sabiam. Ele explicou: primeiro de elevador até o terceiro andar, depois pelo corredor até o próximo posto de controle, depois novamente no elevador e descer até o porão.

Ao subirem para o terceiro andar, viram: o corredor estava lotado. Entre a multidão, rostos conhecidos surgiam. Todos se dirigiam ao chamado quiosque de souvenirs.

— Duas horas para ficar em pé? — lamentou Fyodor. — Vou fumar.

— Seu lugar será ocupado por outros parasitas. E com prazer — ironizou Genka.

De fato: uma pequena fila de desejosos de entrar nos cobiçados depósitos já havia se formado atrás deles.

— Se eles estão esperando, significa que há alguém mais estúpido do que eu — disse Fyodor e saiu para fumar.

— Um concorrente a menos. Isso é agradável e tranquilizador — disse Genka.

Maxim pensava: «Como nos acostumamos com tudo isso! Deram uma chance de pegar algo – por contatos, por `blit` (influência), e você nem sente os pés de tanta felicidade. E ainda terá que agradecer por este cupom, retribuir, bajular. Quanto esforço se gasta para simplesmente comprar um guarda-chuva japonês… É assim que nos prendem: com quiosques fechados para os outros. E aqueles que têm acesso permanente a este ou a distribuidores semelhantes se apegarão aos seus privilégios e permitirão o acesso ao “comedouro” apenas a bajuladores comprovados. Aqueles que provaram desta bacia, que sentiram o gostinho da participação, manterão sua superioridade sobre os outros e implorarão por novas esmolas».

Uma Noite de Poesia Inesquecível

O apresentador da noite de poesia fez uma careta:

— Por que o convidaste? Ele vai fazer outra das suas.

— Não vai — retruquei. — Ele é meu amigo. Não me decepcionará.

— Já ouvi isso um milhão de vezes. Todas as vezes ele apronta…

No meio da noite, meu amigo mais velho recebeu um bilhete. Leu, dobrou e aproximou-se do microfone, segurando-o nas mãos.

— Escrevem-me que não conhecem um poeta como eu, não leram meus livros, não se lembram dos meus poemas. Perguntam o que escrevi. E generosamente permitem que eu não responda ao bilhete, se for desagradável para mim. Mas eu responderei. Não há nada de desagradável. Só me permitam, já que estamos numa espécie de “instituto de física”, realizar um experimento. Há objeções?

— Não há objeções! — exclamou a sala, e o apresentador lançou-me um olhar de desaprovação.

— Então, vamos começar — continuou meu amigo mais velho. — Quem de vocês conhece o poeta N., por favor, levante a mão.

Levantou-se, como se diz, uma floresta de mãos.

— Agora, que se levantem aqueles que conhecem seus poemas.

Seguiu-se um silêncio tenso, apenas as cadeiras rangiam.

— Ninguém? Ok, que se levantem aqueles que se lembram de pelo menos uma de suas linhas, e que a leiam.

Novamente o silêncio. O apresentador da noite estava vermelho de raiva.

— Talvez estejam com vergonha de citar? Então, apenas levantem a mão. Uma linha. Quem conhece uma linha dele? Não vou verificar, confiarei na palavra de vocês.

E novamente imobilidade e tensão na sala.

— E agora, que levantem a mão aqueles que conhecem o poema «Eu na floresta de primavera»…

Todos levantaram. Meu amigo riu.

— Fui eu quem o escrevi — e, elevando a voz, abafou o murmúrio culpado. — Para mim, não há nada de ofensivo neste bilhete. Os tempos são tais que o título de poeta é concedido pelo Estado… por grandes méritos não literários.