Bancos Centrais: A Necessidade de Comunicação Direta

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Como a Comunicação Direta Fortalece a Confiança dos Cidadãos nos Reguladores Financeiros

As conferências de imprensa dos bancos centrais, embora sejam o método principal de comunicação de decisões, são consideradas pouco eficazes para o público em geral, segundo novas pesquisas do Banco Central Europeu (BCE). Observou-se que os cidadãos recebem informações dos media, onde factos e interpretações se misturam frequentemente. Um experimento conduzido por economistas do BCE demonstrou que a comunicação direta pode construir confiança fundamental no banco central, aumentar a literacia financeira da população e estabilizar as expectativas de inflação em torno das metas.

Representantes do Banco Central Europeu
Foto: Ralph Orlowski / Reuters

A ausência de comunicação eficaz com o público dificulta o trabalho dos reguladores, conforme destacado nos documentos de trabalho do BCE. A prática atual de transmitir informações através de conferências de imprensa não resolve o problema, pois a mensagem chega aos cidadãos via imprensa, que nem sempre distingue entre factos e interpretações.

Os economistas do BCE, Alexander Jung e Francesco Paolo Mongelli, investigaram como outras formas de comunicação direta – como reuniões abertas com representantes do banco central, seminários educativos e informações publicadas no site e redes sociais – podem influenciar a perceção dos cidadãos sobre a política monetária (PM).

No experimento, participaram 5.000 pessoas com diferentes níveis de conhecimento sobre PM, divididas aleatoriamente em três grupos. O primeiro grupo frequentou seminários do BCE durante vários meses, onde aprenderam sobre os princípios que guiam o Conselho do BCE nas suas decisões de política monetária. O segundo grupo foi o de controlo, sem interação com o regulador. O terceiro, o “grupo placebo”, participou em reuniões que abordavam outras responsabilidades do banco central, não relacionadas com a PM.

Os resultados revelaram que os participantes que assistiram aos briefings sobre política monetária melhoraram significativamente a compreensão e aumentaram a sua confiança no BCE. Numa pesquisa final, demonstraram conhecimentos mais aprofundados do que os grupos de controlo e placebo. As sessões sobre PM tiveram um impacto notável na ancoragem das expectativas de inflação no primeiro grupo. Ao responder a perguntas sobre a dinâmica da inflação a médio prazo, os participantes mencionaram metas que se enquadravam nos corredores de previsão do BCE. No entanto, os seminários sobre PM não influenciaram significativamente as expectativas de crescimento económico dos inquiridos. Os autores explicam que isto se deve à multiplicidade de fatores externos que afetam o PIB, tornando virtualmente impossível alinhar as perceções dos cidadãos sobre o seu impacto potencial.

A pesquisa não oferece uma resposta sobre a frequência ideal da comunicação direta entre o banco central e o público não especializado para manter a confiança. Permanece também incerto se mensagens claras e acessíveis nas redes sociais ou no site do regulador podem ser tão eficazes quanto os seminários presenciais conduzidos pelo BCE.

Contudo, as conclusões gerais dos economistas podem ser úteis para reguladores em diferentes países. Por exemplo, a expansão da comunicação direta com os cidadãos poderia beneficiar o Banco Central da Turquia. Recorde-se que a Turquia abandonou a sua política monetária “não convencional” (redução da taxa de juro chave com inflação crescente) em 2023, mas ainda não conseguiu “ancorar” as expectativas de inflação da população, acostumada a preços em constante aumento. O regulador já expandiu a sua comunicação para além dos relatórios de política monetária, e o próximo passo poderá ser aumentar a acessibilidade dessas mensagens.