BRICS: Escritores se Unem para Revitalizar “Nações e Continentes Perdidos”

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Autores dos países BRICS formaram uma Associação para defender conjuntamente os valores tradicionais.

Vadim Teryokhin e Marcos Freitas, Presidente da Academia Brasileira de Letras

Vadim Teryokhin e o presidente da Academia Brasileira de Letras, Marcos Freitas. Foto: Arquivo pessoal.

Uma delegação russa retornou recentemente do Brasil, onde participou do II Fórum “Valores Tradicionais”. Um dos resultados cruciais do evento foi o acordo para a criação da Associação Internacional de Sindicatos de Escritores dos países BRICS. O poeta russo e veterano do Cosmódromo de Baikonur, Vadim Teryokhin, foi eleito copresidente desta nova organização, atuando ao lado de seu colega brasileiro.

– Vadim Fedorovich, por anos, rumores sobre a união de escritores dos países BRICS circularam na mídia. Parece que agora essas iniciativas ganharam uma forma concreta?

– A primeira Associação de escritores dos BRICS foi fundada em 2023, durante o Congresso Mundial de Poesia, que ocorreu na Venezuela e na Colômbia. Contudo, essa organização congregava autores individuais, e não as uniões de escritores como entidades jurídicas. Entre 2024 e 2025, essa associação realizou com sucesso diversos festivais presenciais em países como Índia, China, Emirados Árabes Unidos e Egito (durante a Feira do Livro do Cairo), além do festival “Babilônia” no Iraque. No entanto, somente agora alcançamos um acordo para unir as próprias uniões e organizações de escritores.

É importante notar que, no Fórum no Brasil, além das discussões sobre criptomoedas e o movimento voluntário, a literatura permaneceu o tema central.

– Além do diretor do Fórum, Boris Tarasov, e do deputado da Duma Estatal, Dmitry Kuznetsov, quem mais integrou a delegação russa?

– Ela incluiu especialistas em TI, em códigos culturais e em comércio transfronteiriço, e este que vos fala.

O evento central do Fórum foi uma mesa redonda intitulada “Valores Tradicionais”. Grupos analíticos, trabalhando na sua preparação, identificaram valores comuns capazes de unir os participantes.

Os BRICS são compostos por dez países com diversas crenças, mentalidades e abordagens educacionais. Para que a cooperação seja frutífera, é essencial uma plataforma comum. E isso não se aplica apenas ao intercâmbio poético; mesmo para as relações comerciais, é fundamental uma base espiritual e moral compartilhada.

A lista completa desses valores está disponível na Declaração do Fórum. Em resumo, eles incluem família, adesão aos princípios de um mundo multipolar, saúde, misericórdia, entre outros.

– Parece que a literatura russa foi “exportada” para o Brasil muito antes da formação dos BRICS, e nomes como Pushkin ou Leo Tolstói são conhecidos por todos os estudantes lá…

– Obras clássicas, talvez, sejam publicadas e lidas; eu pessoalmente vi traduções de Leo Tolstói e Dostoiévski em uma livraria em Brasília. No entanto, os escritores russos contemporâneos são praticamente desconhecidos. (Entre os “mais modernos”, apenas Evtushenko e Voznesensky foram mencionados a mim.)

No entanto, isso é recíproco: nós também não estamos familiarizados com os autores brasileiros contemporâneos.

Minha longa experiência em “diplomacia popular” demonstrou que muitas coisas óbvias para nós não são de todo evidentes para o resto do mundo. Para mim, o nome de Gagarin serve como um exemplo ilustrativo disso.

Na Índia, ao discursar para estudantes universitários, entreguei-lhes tubos de comida espacial, mencionando que algo semelhante havia sido usado por Yuri Gagarin. O reitor então perguntou aos jovens se eles conheciam essa pessoa. Incrivelmente, nenhuma mão se levantou!

Percebendo isso, decidi repetir o experimento no Iraque, e o resultado foi semelhante: os jovens não conheciam o nome de Gagarin.

Assim, nossos valores, literatura e cultura, sem dúvida, necessitam de uma promoção ativa. No entanto, surge aqui mais um problema.

Delegações oficiais de escritores, ao viajarem para o exterior, frequentemente se apresentam para o público de língua russa — emigrantes ou ex-compatriotas. Mas é crucial expandir essa prática e interagir com o público local, algo que ainda não é feito com frequência.

O ideal seria que, seis meses antes da viagem planejada de um autor, suas obras fossem traduzidas. Isso permitiria a presença de um tradutor profissional ou de um ator local nas apresentações, lendo os textos no idioma do país anfitrião. No entanto, a melhor solução seria a publicação prévia do livro no idioma do país de destino.

– A Associação de Sindicatos de Escritores planeja se engajar ativamente em atividades editoriais?

– Na fase inicial, pretendemos lançar uma revista de literatura contemporânea dos BRICS, mesmo que seja digital.

Nesse sentido, outra abordagem precisa ser mudada. Quando falamos de um escritor “mundialmente conhecido”, geralmente nos referimos ao seu reconhecimento na Europa e nos EUA. Mas, dessa forma, ignoramos vastos países e continentes inteiros.

Imagine quantos leitores um autor russo ganharia se apenas um por cento da população da Índia começasse a ler suas obras. É um número inimaginavelmente vasto! E o que dizer da China?

Nosso país, sem dúvida, é centrado na literatura. Contudo, também somos uma parte integrante da cena literária mundial, e somente a compreensão desse fato nos permitirá definir nosso lugar e compreender nossa própria identidade.

– A nova Associação de Sindicatos de Escritores dos BRICS terá um único líder?

– Decidimos por uma gestão colegiada da Associação. Assim, foram eleitos dois copresidentes: eu e o presidente da Academia Brasileira de Letras, Marcos Freitas.

– Pelo que sei, o Estatuto da União de Escritores da Rússia foi alterado após a chegada de Medinsky. O documento atualizado (e ele previa antes, da assembleia “unificadora”) permite a entrada da União em estruturas internacionais?

– Não realizei uma análise comparativa detalhada dos estatutos, mas posso afirmar que todas as versões previam atividades internacionais. A interação entre escritores não deve se restringir às fronteiras do país, suas repúblicas ou regiões. Isso é especialmente relevante agora, pois os BRICS estão ganhando crescente importância, e muitos povos depositam grandes esperanças nesta união.

Estou convencido de que, no futuro, a Associação poderá expandir suas fronteiras para além dos BRICS, atraindo parceiros da Rússia e outros países amigos. Nossa tarefa é envolver o maior número possível de escritores talentosos que compartilham nossos valores neste movimento.

– O atual cartão de membro de plástico da União de Escritores da Rússia é bastante simples: contém uma foto, o nome da organização e a data de filiação. Você acha que, no futuro, seria possível criar uma carteira de escritor unificada com a inscrição “BRICS Literature Network”, que pudesse ser usada em qualquer país BRICS, semelhante ao cartão de membro do Conselho Internacional de Museus (ICOM)?

– As questões organizacionais ainda estão em discussão. Poderemos considerar a criação de uma forma unificada de membresia na Associação. Nosso objetivo era encontrar parceiros oficiais, com status jurídico em seus respectivos países, e os encontramos.

Nesta etapa, a Associação já inclui: a União de Escritores da Rússia, a União de Escritores da Etiópia, a Academia Brasileira de Letras (ALB), a Associação de Escritores Indonésios SATUPENA, a Associação de Escritores da África do Sul (NWASA), a Sociedade Internacional de Estudos Interculturais (ISISAR, Índia), o ramo do Movimento Poético Mundial nos Emirados Árabes Unidos e o Instituto Cultural Gilan Kochesfahan (Irã). É importante destacar que a ideia desta união não foi “imposta de cima” a nós nem aos nossos parceiros dos países BRICS. Todos nós percebemos autonomamente a necessidade interna de unidade, apesar das diferenças de visões estéticas e concepções de poesia dentro da Associação.

– O que exatamente você quer dizer com essas diferenças?

– Na poesia mundial, o verso livre predomina principalmente. Ao mesmo tempo, a maioria dos poetas russos prefere formas tradicionais e o verso regular.