Esquetes
Uma Companhia Barulhenta
Primeiro Convidado: O que nos une, sentados a esta mesa? O facto de sermos moscovitas. O ar que respiramos desde a infância moldou-nos. Reconhecemo-nos sempre de imediato, pela primeira palavra.
(Todos, exceto um convidado, levantam-se e brindam com as taças.)
Segundo Convidado: Os franceses não tomaram Moscovo. Os alemães não tomaram Moscovo. Foram os trabalhadores migrantes, a “limita”, que a tomaram.
O Convidado que não brindou: É que vocês não querem sujar as mãos. Estão entrincheirados nos escritórios. Limpar o lixo, desentupir esgotos – isso não é para vocês. Mas nós, não nos importamos. Não nos recusamos a fazer trabalho sujo. É por isso que vos vamos vencer. Porque vocês não têm nada a desejar; vocês já têm tudo. E nós queremos tudo, porque não temos nada.

Palhaços
Primeiro: Temos canetas iguais. Onde encontraste a tua?
Segundo: Encontrei na cantina. Alguém deve tê-la deixado cair.
Primeiro: E eu comprei a minha num quiosque de jornais. O que a semelhança das nossas canetas diz? Diz que somos do mesmo meio. Os ricos reconhecem-se pelos seus relógios “Rolex” iguais, e nós, pela exibição das nossas canetas de pena simples, percebemos que pertencemos ao mesmo grupo socioeconómico.
O Critério da Juventude
Ele: Não sou velho! Os jovens não me cedem o lugar nos transportes.
Ela: Hoje em dia, os jovens não cedem o lugar a ninguém.
Conversa de Amigos
Primeiro: Ninguém te persegue.
Segundo: Exceto a morte.
Pequenas Alegrias Cristãs
Primeiro: Na vida, somos cercados por inimigos. Mas depois, esquecemos as ofensas.
Segundo: Esclerose…
Depois do Casamento
Ele: Tu listaste centenas dos teus pontos positivos quando me convenceste a casar. Mas não disseste uma palavra sobre os teus defeitos.
Ela: Essa é a minha surpresa de casamento para ti.
Revelação
Primeiro: Conhecemo-nos há dez anos e nunca conversamos a sério.
Segundo: O mais triste é que morreremos e nunca teremos uma conversa séria.
Brinde
Convidado: A quem brindamos?
Mestre de Cerimónias: À liderança. Sempre à liderança. Este é um brinde e uma posição de princípio: à liderança. Aconselho a todos: bebam à liderança. Só à liderança. Não se enganarão.
Sobre Esposas Fiéis
— Ser esposa do seu marido é uma profissão.
— E das mais antigas.
Sobre Esposas Infiéis
— Deu à luz três filhos. Isso significa que se deitou com o marido pelo menos três vezes.
— Não é um facto. Os filhos não se parecem com o pai.
Exame
— Que escritores conheces?
— Lev Tolstói, Dostoiévski.
— Quais das suas obras te são familiares?
— Lev Tolstói – volume um, Dostoiévski – volume nove.
Fila para o Templo
Velha Senhora: O meu filho está em coma depois de um acidente. Vou aos restos mortais, e vocês não me deixam passar. Preciso de me aproximar, tocar na relíquia!
Guarda: Fique na fila!
Mulher: Tenho pressa para rezar.
Guarda: Fique na fila. Vá para o fim! Não incomode!
Velha Senhora: Não vou conseguir. Tenho de conseguir.
Guarda: Respeite a ordem!
Mulher: Está a assumir demasiado.
Guarda: Não me chateie! Saia daqui!
(O Arcanjo Gabriel aparece, brincando com um molho de chaves.)
Arcanjo Gabriel (ao Guarda): Vamos.
Guarda: Estou em serviço.
Arcanjo Gabriel: As portas celestiais estão sempre abertas e permitem a entrada sem fila.
Guarda (tristemente): Não posso abandonar o posto. Mas estou habituado a obedecer.
Velha Senhora: Que sorte! A fila desapareceu!
A Casa do Enforcado
(após o evento trágico)
Filha: Procurei por todo o lado… Onde? Bem, aquilo…?
Filho: O que queres dizer?
Filha: Bem, aquela… Que…
Filho: De que estás a falar?
Filha: Bem, que se enrola assim.
Filho: Cala-te!
Filha: É usada para amarrar…
Filho: Ligadura?
Filha: Quase. Só que uma ligadura dá esperança. Dá uma chance. E aqui não há chance.
Filho: Estás a falar da avó?
Filha: A avó pode ser enrolada numa bola de lã?
Filho: Sim. Um gato também. Se quiseres. Qualquer um pode. Ser encurralado.
Filha: Estou a falar de um objeto inanimado.
Filho: Do pai? Sim, terminou tragicamente. Quem poderia imaginar?!
Filha: Todos podiam.
Filho: Não podiam. A sabedoria popular diz: tudo acaba bem. O que quer que se faça, é para melhor.
Filha: Nem sempre, infelizmente. Ele devia ter fugido. Mas, claro, ele não acreditava, como todos nós. Não previu que se tornaria tão dramático.
Filho: Se ele tivesse fugido… Bem, se tivesse tentado fugir, teria sido pior.
Filha: Pior do que isto?!
Filho: Fugir significaria admitir a culpa. E ele não se considerava culpado. E muitos não o consideravam. No tribunal, ele esperava provar…
Filha: Mas como se prova algo a quem está atolado na corrupção?
Filho: Às vezes acontece. A justiça triunfa.
Filha: Na verdade, ele queria fugir. Quando percebeu que era inevitável. Fez a mala com o essencial. Mas não encontrou… aquilo… Para amarrar a bagagem.
Filho: Sim, aquilo… Para amarrar… Os pertences.
Filha: É disso que estou a falar.
Filho: É mau quando não se pode falar diretamente…
Filha: E lembras-te, costumávamos falar livremente… E dizíamos diretamente: é preciso comprar… aquilo… bem…
Filho: Não tenhas medo, diz!
Filha: Eu não tenho medo. Mas não se pode. Não é costume. De acordo com as crenças populares.
Filho: É importante para nós. Dizer diretamente! Mostrar a nós mesmos que não estamos desmoralizados.
Filha: Bem, barbantes, cabos, arames, cordas… Fios e cabos.
Filho: E o pai opunha-se: “Não! Não vou fugir para lado nenhum!”
Filha: E fitas! Coloridas!
Filho: E atacadores!
Viúva (intervém): Chega! Não irritem a ferida. Não mexam nela.
Filha: E o pai dizia: “Não! Não comprem… Aquilo… Senão usarão para o fim a que se destina!”
Viúva: E eu digo: não! Tenho medo por vocês. E, além disso: não é costume violar… O tabu. Senão, vamos invocar novamente a desgraça.
Filha: Sim, também notei: começas a falar dela, e imediatamente vem a tentação… de usar… como disseste… para o fim a que se destina. Para o fim direto, quero dizer. E não para embalar presentes.
Filho: E também aqueles… Como se chamam? Trela e coleiras! Também não vamos comprar. Senão, vão pôr-nos na corrente. Eles são capazes disso. A corrente é um análogo da corda.
Filha: Bem, e dissemos. E nada de terrível aconteceu. É bom, falamos livremente. Sem nos constranger. Chamamos as coisas pelos seus nomes.
Filho: E antes tínhamos medo… de dizer.
Filha: Porque a perda era muito recente. Agora acalmou. E somos livres para dizer o que nos apetece. Corda. Corda. Corrente. Fita. Coleira. Como senti falta destas simples palavras humanas!
Filho: Corda. Corda. Corrente. Ligadura. Que bênção sentir-me livre! Articular o que quiser. Corda. Corda. Barbante.
Filha: Barbante. Corda. Corda. Barbante. Cabo. Fio. Coleira.
Filho: Fio. Cabo. Finalmente, livres. De superstições malditas! Cabo. Cabo.
Filha: Corda. Corda.
Filho: Podemos falar sobre mais alguma coisa?
Filha: Primeiro, vamos aproveitar a liberdade. Em pleno. Cabo. Corda. Ligadura.
Filho: Cabo. Ligadura. Barbante.
Filha: Bem, libertamo-nos. Não foi fácil.
Filho: Ligadura. Cabo. Corda. Barbante. Fita. Fita colorida.
