Muitas vezes se diz que a arte enobrece a alma. No entanto, mesmo aquilo que visa nos tornar melhores pode, ironicamente, se tornar o centro de intensas disputas legais que chegam aos tribunais. Enquanto alguns processos são naturais e visam apenas garantir a conservação de obras-primas para as futuras gerações, há outras situações que envolvem herança, valor e intenções questionáveis.

Valery Dudakov
Valery Dudakov, cujo acervo gerou uma grande disputa judicial.

O Caso das Pinturas Não Reivindicadas

Em 2023, um tribunal russo examinou o caso de obras de arte que estavam sem proprietário e em depósito de longa data na Galeria Estatal Tretiakov. Esses itens, que incluíam 72 pinturas, 19 obras gráficas e três esculturas, chegaram à Galeria em diferentes épocas, tanto por doação dos próprios autores quanto por meio de exposições da União dos Artistas da URSS.

Como as obras não tinham proprietário estabelecido, a Galeria Tretiakov entrou com uma ação judicial para reconhecê-las oficialmente como bens sem dono e transferi-las para a propriedade do estado. Este é um procedimento padrão quando uma obra de arte permanece sob custódia temporária em um museu por pelo menos cinco anos sem que os proprietários sejam encontrados.

A Galeria cumpriu suas obrigações, buscando ativamente os proprietários (inclusive por meio de uma seção especial em seu site), mas, mesmo tratando-se de trabalhos de autores renomados como Petrov-Vodkin e Levitan, nenhum herdeiro com base legal apareceu. O tribunal decidiu a favor do estado, e as quase cem obras agora residem oficialmente em propriedade pública.

O Caso Osherovich

Este caso se desenrolou em Rostov-on-Don em 2023, mas suas raízes históricas remontam ao século passado. O Dr. Iakov Osherovich, urologista em Leningrado antes da Grande Guerra Patriótica, era também um colecionador de arte. Ao se alistar como voluntário, ele deixou seu acervo em custódia de dois irmãos em Leningrado.

Osherovich sobreviveu à guerra, mas após contrair encefalite por carrapato, mudou-se para a região de Rostov, levando consigo nove pinturas. Ele sonhava em legar sua coleção a um museu, mas a tarefa de cumprir essa vontade coube à sua filha, Alexandra, após sua morte. Alexandra viajou para a Carélia para recuperar a décima pintura e, em meio a uma doença grave, apressou-se em fazer a transferência.

Em 2023, no Museu Regional de Belas Artes de Rostov (ROMII), os funcionários avaliaram as obras, constatando sua raridade e a possível presença de trabalhos de Konstantin Makovsky. Alexandra assinou o ato de transferência das pinturas para custódia permanente (doação) e faleceu logo depois.

No entanto, no verão, um suposto herdeiro de Alexandra apareceu, pedindo a devolução dos quadros. O herdeiro alegou que a intenção de Alexandra era apenas submeter as obras à perícia, e não doá-las. O tribunal, contudo, rejeitou o pedido, mantendo a coleção na posse do estado.

O Caso da “Rosa Azul”

A história mais recente envolve o renomado colecionador Valery Dudakov, conhecido por sua contribuição para a valorização da coleção na era soviética. Em julho, Moscou sediou uma exposição de despedida de 40 obras do grupo “Rosa Azul” pertencentes a Dudakov, que haviam sido doadas ao Museu Estadual de Arte de Nizhny Novgorod (NGKHM) em maio de 2025.

O museu considerou a doação de Dudakov, que incluía obras de grande valor como “O Demônio” de Vrubel, “Minha Vida – O Abrigo dos Comediantes” de Sudeikin, “Passeio” de Larionov e “O Baile” de Sapunov (avaliadas em cerca de 3 bilhões de rublos), um marco comparável aos поступления que fundaram o museu no final do século XIX.

Apesar da generosidade da doação, o destino da coleção tornou-se alvo de uma grave disputa familiar. Primeiro, em maio, a esposa de Dudakov, Marina Kashuro, entrou com um processo de divisão de bens. Em seguida, seu filho, Konstantin Dudakov-Kashuro, professor associado da Universidade Estatal de Moscou (MSU) e especialista em arte, entrou com uma ação para declarar o pai legalmente incapaz.

O filho justificou sua ação alegando que o pai idoso e doente estaria sendo influenciado por “pessoas inescrupulosas” (referindo-se à sua companheira de longa data, Eleonora Zakharzhevskaya) e que a incapacidade seria a única forma de “preservar-lhe a vida e a coleção”, impedindo a transferência descontrolada de bens a terceiros. Konstantin afirmou que, como potencial tutor, essa era uma escolha difícil que precisava ser feita.

A advogada de Valery Dudakov, Yulia Verbitskaya (Linnik), contestou essa visão, comparando o caso às tentativas de “herdeiros” de se apossarem de bens culturais doados ao estado, citando o precedente do caso Roerich. Ela argumentou que tais ações, ao tentarem invalidar transações legais, acabam por desonrar o nome do doador.

Valery Alexandrovich, por sua vez, defende sua missão: “A arte pertence ao povo. Foi o que nos ensinaram na universidade”, e enfatiza que seu objetivo principal é preservar o legado dos grandes artistas.

No âmbito do conflito, o casamento de Dudakov com Marina Kashuro foi legalmente dissolvido em setembro, embora a ex-esposa tenha recorrido, tentando manter o status matrimonial. Além disso, surgiram informações de que Marina Kashuro havia recebido pinturas valiosas (incluindo obras de Boris Grigoriev, Nicholas Roerich e Valentin Serov) por meio de um acordo de divisão de bens em 2022, e essas obras foram listadas em leilões em 2024, levantando questões sobre o real interesse em “preservar a coleção”.

Em relação à doação da “Rosa Azul”, Konstantin Dudakov-Kashuro expressou preocupação de que a coleção estivesse em “custódia temporária” e no balanço de um fundo, e não diretamente no museu. Contudo, a advogada Verbitskaya esclareceu que o envolvimento de fundos especializados é uma prática comum para grandes doações ao estado, facilitando os complexos procedimentos de transporte, documentação e perícia, citando o exemplo de Sviatoslav Roerich, que usou um fundo para doar o acervo de seu pai ao “povo soviético”.