Avós, anjos e a vida na realidade
O aclamado Teatro Hermitage de Moscou, temporariamente instalado em um palco na Nova Arbat, apresentou sua mais recente estreia: a peça «As Velhinhas», inspirada no conto de Friedrich Gorenstein. Esta produção comovente explora as complexas relações entre mãe e filha, e a incessante busca por escapar da dura realidade. É uma obra que alterna momentos de humor hilário, profunda ternura e tragédia genuína.

No Pequeno Palco do edifício na Nova Arbat, onde o «Hermitage» está alojado provisoriamente (já por nove anos!) enquanto seu prédio principal está em reforma, acontecem os espetáculos do ciclo «Teatro de Mikhail Levitin pelos olhos de seus alunos». Nesta temporada, a filha de Mikhail Levitin, Olga Levitina, fez sua estreia como diretora. Sua escolha recaiu sobre o conto «As Velhinhas», de Friedrich Gorenstein.
Olga Mikhailovna confessou que não conhecia Gorenstein antes: «Eu precisava encontrar um material interessante para um palco pequeno, e meu irmão Sasha me aconselhou este conto. Eu não sabia nada sobre o escritor Gorenstein antes», — conta Olga Mikhailovna. — «Não sei se vocês já leram algo deste escritor notável, mas espero que queiram se familiarizar com seus contos depois de assistir à peça. Ele é um escritor muito peculiar e absolutamente genial.»
Na verdade, muitos que assistiram ao filme «Solaris» de Tarkovsky ou «Escrava do Amor» de Nikita Mikhalkov estão familiarizados com a obra de Friedrich Naumovich: ele foi o roteirista desses filmes. Contudo, «As Velhinhas» é um conto, um entre tantos do autor, e na sua prosa artística já se percebe um pensamento cinematográfico.
As limitações do Pequeno Palco — mínimo de cenários e atores — definiram o estilo da encenação. A peça conta com apenas cinco personagens: a mãe (97 anos na trama) e a filha. Curiosamente, o papel da mãe centenária é interpretado pela atriz de 27 anos Kim Daria Kosheva, que também se destacou na estreia do ano passado, «A Floresta. Um Caso Particular», ao lado de Irina Bogdanova, que aqui vive a Velhinha-filha. A jovem atriz, bela e encantadora, surpreendeu pela capacidade de captar com precisão os maneirismos e gestos da velhice, evocando memórias profundas de entes queridos.
Um elemento distintivo da encenação, não presente no conto original de Gorenstein, é a introdução de dois anjos da guarda (Anna Bogdan e Victoria Zakaria). Eles não só protegem as protagonistas das adversidades, como também interpretam todos os outros personagens secundários.
A cenografia é minimalista: algumas escadas decoradas com renda, o que despertou nos espectadores mais velhos um sentimento de nostalgia pelos tempos soviéticos. No clímax da peça, um barco é empurrado para o palco, no qual as duas velhinhas, mãe e filha, embarcam em um passeio simbólico por um corpo d`água perto da praia local. Embora outros detalhes do cenário possam ter sido menos marcantes, as imagens dos personagens permaneceram vívidas e profundas.
A trama narra a vida em comum de duas mulheres, mãe e filha, cujas relações são repletas de mágoas e ternura recíprocas. Suas vidas foram drasticamente alteradas pelas repressões stalinistas. Os eventos trágicos do passado ainda assombram a Velhinha-mãe, enquanto a filha se esforça para trazê-la de volta à realidade e ajudá-la a viver o presente.
Certo dia, em sua modesta casa onde comiam ameixas, um jovem dos órgãos competentes (Sergei Beskhlebnov) bate à porta. Ele traz uma notícia que abala o mundo das damas, e, mais precisamente, traz a Velhinha-mãe de volta à vida. Pela primeira vez em muitos anos, ela pega um táxi para a praia, tira os sapatos e desfruta da sensação da areia em seus pés descalços.
A peça provocou tanto risadas incontroláveis quanto uma profunda tristeza. Ela nos leva a refletir sobre o tempo perdido — um tempo que a protagonista (e nós mesmos) não viveu com alegria, sem desfrutar cada dia, sem luz na alma.
