O Teatro de Arte de Moscou apresenta nova encenação da obra de Bulgakov com o renomado bailarino.
No Teatro de Arte de Moscou (MXT) Gorki, estreou a tão esperada peça “A Cabala dos Hipócritas” (originalmente “Cabala de Santarrões”), baseada na célebre obra de Mikhail Bulgakov. A particularidade desta, que já é a quarta encenação, é a participação de Nikolai Tsiskaridze, renomado bailarino e coreógrafo, que subiu ao palco dramático sob o pseudônimo de Maksim Nikolaev. Sua interpretação do rei Luís XIV da França se destaca não só pelo domínio do idioma francês, mas também pela sua maneira graciosa e elegante de se mover, distinguindo-se notavelmente dos outros atores.

“A Cabala dos Hipócritas” no MXT carrega um profundo contexto histórico. A primeira encenação da peça de Mikhail Bulgakov, na qual ele próprio trabalhou, foi retirada de cartaz após apenas sete apresentações, forçando o autor a deixar o teatro. Documentos expostos no foyer verde do Museu do MXT, incluindo uma cópia censurada da peça e uma carta de Bulgakov a Stanislavski de 1935, atestam as dificuldades e a discordância do autor com as mudanças introduzidas. No entanto, com o tempo, a peça retornou ao palco, ganhando uma longa e bem-sucedida vida, com a participação de atores notáveis como Oleg Efremov e Oleg Tabakov nos papéis principais.

A versão atual, a quarta, de “A Cabala dos Hipócritas”, dirigida por Yuri Kvyatkovsky, destaca-se por sua concepção inovadora. O próprio Mikhail Bulgakov aparece inesperadamente no palco, e o espectador se vê em uma surpreendente mistura de épocas. Os figurinos remetem à época de Luís XIV, mas os diálogos contêm referências modernas, como a frase de Ana da Áustria: “Faremos a França grande novamente”. O diretor Kvyatkovsky descreve essa ecletismo como uma “simbiose de técnicas”, onde o roteiro, baseado em Bulgakov, e as improvisações dos atores criam uma obra única.
O Elenco e a Mensagem da Peça
O diretor artístico do teatro, Konstantin Khabensky, que interpreta Molière, enfatizou o desejo da peça de explorar “a contradição entre a corte e a genialidade” do autor. Ele observou que a encenação levanta questões sobre os relacionamentos e sua importância, e a ideia principal é a necessidade de perdoar uns aos outros – um tema particularmente relevante hoje.

No centro das atenções, Maksim Nikolaev, cujo papel de Luís XIV é apresentado no site do teatro como “a estreia de um ator iniciante no teatro dramático”. Por trás desse pseudônimo, está Nikolai Tsiskaridze. O diretor Yuri Kvyatkovsky revelou que a ideia de convidar Tsiskaridze surgiu imediatamente após a decisão de encenar a peça, e ele foi contatado no mesmo dia. O próprio artista compartilhou seu conhecimento sobre Luís XIV com os colegas e propôs o uso de falas em francês, idioma que domina fluentemente. Tsiskaridze explicou a escolha do pseudônimo por seu princípio: há alguns anos, ele prometeu não atuar no palco dramático com seu nome verdadeiro. Ele também destacou a atualidade da peça, afirmando que muitas de suas ideias permanecem pertinentes. A figura de Luís XIV se mostrou próxima a ele.
“Cada um de nós, ao se tornar um líder, é em parte um Luís”, reflete Nikolai Tsiskaridze, sublinhando a universalidade do tema do poder e da responsabilidade. “A questão é que ainda há muitos `Luíses` acima de nós. Se algo acontece, a quem procuramos ajuda?”
