Estreia da peça “Em Silêncio” no Teatro Pokrovka
No Teatro Pokrovka, pouco antes do Ano Novo, estreou-se a terceira encenação da peça “Em Silêncio”, de Vladimir Malyagin. Trata-se de uma obra complexa e profundamente trágica, que só um diretor ousado e destemido se atreveria a encenar. O fato de o teatro revisitar este drama pela terceira vez sugere, como diz o clássico, que “isso é necessário para alguém”.

A estreia de “Em Silêncio”, baseada na peça homônima de Vladimir Malyagin, ocorreu durante o Natal católico. O público talvez não se lembre muito da peça, pois raramente foi encenada. O falecido diretor Sergey Artsibashev, que nos deixou há dez anos, encenou-a duas vezes: primeiro, logo após sua criação em 1991, e novamente em 2001. Em 2025, a direção ficou a cargo de Alina Gudareva, uma diretora jovem, charmosa e, como se revelou, extremamente corajosa, dado o tema pesado e sombrio que se desenrola no espetáculo.
O próprio autor, Vladimir Malyagin, esteve presente na estreia e compartilhou a origem da obra:
“Esta peça nasceu de forma bastante estranha, como todas as peças nascem. Sergey [Artsibashev e Vladimir Malyagin eram amigos] queria que eu escrevesse uma peça sobre a juventude do final dos anos 80, o que era uma tarefa muito genérica. Ao mesmo tempo, tive a sensação de luz que deveria nascer nesta peça. Escrevi-a muito rapidamente: fui a uma Casa de Criatividade e, em uma semana ou dez dias, a peça estava pronta. Quando a entreguei, Mikhail Shvydkoy, que trabalhava na revista `Teatro`, a publicou rapidamente, e Sergey a aproveitou.”
O conteúdo da obra é difícil, para não dizer terrível e opressor. Mas o fato de uma figura do calibre de Artsibashev a ter revisitado duas vezes indica a profundidade que ele via nela. O retorno do teatro à obra em 2025 também serve como uma homenagem ao mestre, que completaria 75 anos em 2026.
A trama é a seguinte: três estudantes, que trabalham como assistentes de enfermagem em um hospital, e duas garotas vivem juntos, alugando um apartamento de Nikolai Lvovich. Nikolai, o proprietário, sente-se atraído por uma das jovens, a bela Vera. O proprietário causa arrepios: ele emana uma aura perturbadora, associando-se na mente do público a figuras sinistras. Na primeira vez em que aparece, é apresentado como um “Nikolai Lvovich” ganancioso. Na segunda, ele se transforma no “Kolia” apaixonado que tenta cortejar Vera, mas sua “paixão” é claramente insana, culminando numa tentativa de violação.
No seu terceiro aparecimento, percebemos que estamos diante de uma criatura que perdeu o direito de ser chamada de humana, sendo referida simplesmente como “O Proprietário”. Ele assassina Ivan, um dos rapazes que tentou impedir o ataque a Vera. E Vera, por sua vez, contorna o corpo do amigo com giz no chão e escolhe também a morte. O detalhe perturbador é que o mal não é punido, pelo menos não no palco, um reflexo sombrio da época que muitos espectadores presentes desconhecem ou preferem esquecer.
Acredito que aqueles que vivenciaram a era dos anos 90, ou não enfrentaram o mal nesta intensidade, ou felizmente não foram tocados por ele. É possível que a mente, como mecanismo de defesa, tenha apagado parte das memórias mais aterrorizantes, fazendo com que a experiência passada não pareça um pesadelo tão grande anos depois.
Em 1991, o público era composto por aqueles que vivenciavam os horrores da época e, provavelmente, gostariam de se distrair no teatro, em vez de ver o sofrimento que talvez os tivesse atingido. Em 2001, o público tinha acabado de sobreviver a esses tempos difíceis. Em 2025, a plateia é diferente; o espectador moderno pode absorver a história de forma distinta. A peça termina com a canção atemporal “Sabes, tudo ainda acontecerá”, sugerindo que vivemos tempos mais felizes, pelos quais a juventude daquela época esperava e acreditava (e que, de fato, chegaram!).
Portanto, o enredo terrível e a imagem sombria servem para nos lembrar dos valores mais importantes e simples: valorize o que você tem, seja grato por tudo que possui agora e reconheça sua riqueza — que está nas pessoas próximas que estão vivas e ao seu lado. Você mesmo está vivo, o que significa que deve tomar a vida nas suas mãos e torná-la ainda mais bela.
A peça é multifacetada: a diretora insere o motivo bíblico de Abraão e Isaque. Não foi por acaso que os amigos estavam ausentes quando a tragédia atingiu Vera e Ivan; eles estavam ajudando um doente no hospital, um motivo importante de auxílio ao próximo que está em pior situação do que nós. Há muito o que refletir – por exemplo, que o sacrifício de Vera e Ivan não foi em vão, pois o paciente do hospital foi salvo e sua vida continuou.
A preparação para o espetáculo também foi interessante: no foyer, os alunos da oficina de Vladimir Pankov na GITIS, o grupo “Tyuli-Puli”, alternavam canções positivas como “Meu Coração” (do grupo Splin) com obras baseadas em textos de Boris Ryzhy – uma sutil referência a circunstâncias pesadas.
No que diz respeito à música, vale destacar o gênero “soundrama” no qual o espetáculo foi concebido. Os criadores afirmam que é um método de ensaio, mas o público vê apenas o resultado: uma peça repleta de música e canções queridas (como “Asas” de Nautilus Pompilius, “Zurbagan”, “Flamingo Rosa”), que se tornam personagens ativos. É a música que se revela o fator decisivo, permitindo ao espectador sair do teatro não num estado de desespero e desânimo, mas com luz e esperança. Uma esperança de que quaisquer dificuldades que a nossa juventude enfrente também serão superadas e resolvidas, sempre a nosso favor. Não pode ser de outra forma!
