O escritor e diácono de Tashkent, Evgeny Abdullaev, laureado com o prêmio literário `Yasnaya Polyana`, explora os desafios da escrita e da leitura na era moderna.

Introdução e Identidade Cultural
O escritor uzbeque Evgeny Abdullaev, conhecido também pelo seu pseudônimo Suhbat Aflatuni (que significa “Diálogos de Platão” em uzbeque), foi recentemente premiado com o prestigiado prêmio literário “Yasnaya Polyana”. Em uma entrevista, Abdullaev discutiu a complexidade de sua identidade como escritor na interseção das culturas russa e uzbeque. Ele se descreve simplesmente como um escritor, mas reconhece a profunda influência de viver e criar entre dois idiomas e mundos culturais, o que lhe oferece uma perspectiva única sobre sua língua nativa e sua pátria. Para ele, essa “posição intermediária” é crucial para um escritor, permitindo-lhe observar, transformar e questionar, com uma “visão de um estranho” que não anula o amor, mas o torna multifacetado e por vezes contraditório.
O Cenário dos Prêmios Literários
Abdullaev abordou a situação dos prêmios destinados a escritores russófonos que vivem fora da Rússia. Ele lamentou que o “Prêmio Russo” tenha sido suspenso novamente, embora reconheça que prêmios como “Yasnaya Polyana” e “Big Book” ocasionalmente reconheçam autores “estrangeiros” russos. Ele enfatizou a necessidade de um apoio mais direcionado, dado que milhões de pessoas que falam russo vivem fora da Federação Russa. Tal apoio é ainda mais vital hoje, em um período de intensa polarização política que afeta a percepção da língua e da literatura russas na Europa e nos Estados Unidos.
O Início da Carreira e “O Romance de Tashkent”
Questionado sobre seu debut literário, Abdullaev mencionou “O Romance de Tashkent” como a obra que inicialmente atraiu atenção, recebendo o “Prêmio Russo” em sua primeira edição. Apesar de seu sucesso inicial, o autor vê essa obra hoje como um trabalho de aprendizado, uma fase de busca por sua própria voz e estilo.
O Declínio da Publicação de Romances em Revistas
A entrevista tocou na tradicional prática soviética de publicar capítulos de futuros romances em periódicos literários. Abdullaev confirmou que, de fato, o sucesso de “O Romance de Tashkent” foi impulsionado por sua publicação inicial na revista “Druzhba Narodov”. Ele costumava seguir essa prática até o final da década de 2010. No entanto, seu romance mais recente, “Katekhon”, foi lançado diretamente como um livro, pois a tradição de ler romances em revistas está, lamentavelmente, desaparecendo. Embora a prosa curta ainda encontre um lar nesses periódicos, obras mais longas raramente recebem a mesma atenção crítica que recebiam há vinte anos.

Serviço Diaconal e a Revista “Vostok Svyshe”
Além de sua carreira literária, Evgeny Abdullaev também serve como diácono e edita a revista literária ortodoxa “Vostok Svyshe” (Oriente de Cima), publicada pela diocese de Tashkent da Igreja Ortodoxa Russa há 25 anos. A revista se distingue de outras publicações diocesanas por seu caráter literário, predominante na temática cristã. Ela publica pesquisas históricas e teológicas, ensaios, traduções, prosa e poesia.
O Ambiente Linguístico em Tashkent
Abdullaev refletiu sobre como o ambiente linguístico de Tashkent influenciou sua escrita. Ele recorda que até o final dos anos 90, a cidade era predominantemente russófona. No entanto, nos últimos 25 anos, a situação mudou significativamente devido à emigração da população russófona e ao influxo de falantes de uzbeque. Essa transformação do ambiente linguístico, embora por vezes dramática, oferece ao escritor uma experiência fascinante, abrindo espaço para novas perspectivas e vozes através da interação com a riqueza do idioma uzbeque.
A Gênese de “Katekhon”
A ideia para seu premiado romance “Katekhon” (Catechon) surgiu de imagens visuais vívidas, incluindo cenas de inquisição e queima. A principal tarefa artística, segundo Abdullaev, foi mesclar ficção com não-ficção complexa, abordando questões filosóficas e teológicas. Ele descreve o processo de criação como um ato de mirar em um “vazio escuro e ventoso” no início, até que a meta se torna clara.
Complexidade e Aspirações a Prêmios
Abdullaev não esperava ganhar um prêmio por “Katekhon”, acreditando que escrever com tal objetivo é improdutivo e distrativo. Ele compara essa mentalidade a cortejar alguém por interesse financeiro. Ele também argumenta que seu livro não é excessivamente complexo. Em sua visão, a verdadeira “complexidade” da literatura, exemplificada por Dostoievski ou os filmes de Tarkovsky, não reside na incompreensibilidade, mas em sua capacidade de forçar o leitor a uma profunda auto-reflexão. Essa jornada para o “eu” real pode ser psicologicamente desafiadora e até angustiante para muitos, que preferem se distrair. A literatura de Abdullaev busca essa mesma tradição de complexidade introspectiva.
Influências Literárias e o Futuro da Escrita
Entre os “titãs” literários que o inspiram, Abdullaev nomeia Púchkin, Gógol e Mandelstam, além da prosa russa das décadas de 1920 e 1930, com autores como Platonov, Vaginov, Bulgakov, Olesha, Ilf e Petrov. Ele ressalta que, na era moderna, “apoiar-se nos ombros de gigantes” tornou-se mais desafiador. A revolução da informação está transformando a própria natureza da leitura, e a clássica “imortalidade” da literatura depende de sua capacidade de se manter relevante para o leitor contemporâneo. Ele conclui que os escritores de hoje precisam buscar novos estilos e enredos para que a literatura possa “resistir” e permanecer amada, como era há cinquenta ou sessenta anos.
