Festival de Palhaços: Shakespeare Argentino em Moscou – Uma Explosão de Risadas

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No Teatro Yermolova de Moscou, uma aguardada estreia de uma interpretação argentina da clássica peça de Shakespeare.

«Shakespeare é uma bobagem», afirmam os atores da Argentina, que, durante o Festival Tchekhov, encenaram a peça de William Shakespeare «Medida por Medida», adicionando o seu próprio título – «A Culpa é Sua». E todas as quatro apresentações terminaram com ovações de pé. Moscou simplesmente se apaixonou pelos atores que, diante de um público sofisticado da capital, `rasgaram` Shakespeare como um trapo. No entanto, esta `execução` do clássico não foi sangrenta, mas sim hilariante. Afinal, no palco estavam palhaços. E esta é uma plateia que se permite tudo e a quem tudo é perdoado. Eles são palhaços!

Apresentação da versão argentina de Shakespeare no Teatro Yermolova
Foto cedida pela assessoria de imprensa do Festival Tchekhov

A apresentação dos argentinos ocorreu no Teatro Yermolova, onde os espectadores, que já haviam ocupado seus lugares antecipadamente, depararam-se com uma cena bastante modesta. No palco, havia apenas cinco biombos duplos, revestidos de veludo azul de um lado e tecido vermelho brilhante do outro, com o tecido fixado de forma não muito meticulosa em uma estrutura leve de metal. Uma cenografia tão minimalista, aparentemente de baixo orçamento, gerou certa surpresa na sofisticada plateia teatral de Moscou, acostumada a produções opulentas e caras.

Minhas reflexões foram interrompidas pelo motivo trágico do segundo ato do balé `Lago dos Cisnes` de Pyotr Ilyich Tchaikovsky, o que apenas aumentou minhas suspeitas. No entanto, de trás da tela, que estava instalada no fundo do palco, surgiram não cisnes em tutus, mas cinco pessoas cujo aspecto não deixava dúvidas sobre sua afiliação de gênero – palhaços, que podem atuar em locais grandes ou pequenos, no circo, na rua, num cemitério – em qualquer lugar. E pareciam não ser apenas artistas, mas personagens prontos, com traços faciais expressivos, realçados pela maquiagem. Sem falar nos figurinos ridículos: calças apertadas com pernas curtas, ternos antiquados e desajustados, casacos folgados… A trupe de bobos estava pronta para o desafio de Shakespeare. Com farsa, bufonaria, grotesco e até guignol. Estaria o público preparado para o clássico de tal forma?

Atores argentinos em cena
Foto cedida pela assessoria de imprensa do Festival Tchekhov

A peça «Medida por Medida» é classificada por especialistas como uma das comédias `sombrias` ou `problemáticas` de Shakespeare, pois, além dos recursos cômicos como a troca de personagens e o jogo de palavras, ela contém uma sátira mordaz que levanta questões sociais, filosóficas e até políticas profundas.

A trama narra a história do duque de Viena, Vicenzo, que deliberadamente se afasta do poder para observar os assuntos da cidade, deixando em seu lugar o juiz Ângelo, conhecido por sua aparência ascética e reputação impecável – a fim de ver como ele demonstraria sua arte de governar. No entanto, ao receber o poder, este `santo` revelou sua verdadeira face: assinou a sentença de morte do nobre Cláudio, que teve um caso extraconjugal com Julieta, mas com quem não podia se casar por ser pobre. E ainda tentou seduzir sua irmã Isabela, que estava prestes a se tornar freira (preparando-se para fazer os votos), mas que foi forçada a implorar a Ângelo o perdão de seu irmão. E ele, mentindo descaradamente, disse a ela: «Entregue-se – e eu perdoarei». Ou seja, ele foi o primeiro a violar a lei que deveria proteger. Um tipo muito reconhecível, embora tenha sido criado por Shakespeare na peça de 1603-1604 (a data exata de escrita não foi estabelecida).

O diretor da peça, o mundialmente famoso palhaço Gabriel Chame Buendía, `cortou` Shakespeare a carne: dos 21 personagens, ele manteve oito principais, que foram interpretados por cinco atores familiarizados com a especificidade da palhaçada. Ele também lidou com o texto de forma bastante livre e, para as apresentações em Moscou, adaptou-o às realidades russas: passou cerca de dois meses revisando-o com nossos tradutores, mas sem se afastar da fonte original. O novo texto rolava em painéis colocados em ambos os lados do palco e acima dele.

Cena da peça argentina `Medida por Medida. A Culpa é Sua`
Foto cedida pela assessoria de imprensa do Festival Tchekhov

Aqui, o duque de Viena viaja no trem Sapsan da RZD, mas por alguma razão para a Polônia, que é ora um país, ora uma cidade. Mytishchi e o Teatro Bolshoi também são mencionados. O jargão é antigo e novo: `spalilsya` (foi pego), `spokukha` (relaxa), `randomno` (aleatoriamente)… Como se diz, fiquem de olho no texto.

Mas não havia tempo para prestar atenção especial, era preciso acompanhar o que acontecia no palco. E lá, os palhaços apresentavam cenas engenhosas, sem adereços, uma cascata de truques (acrobáticos, ilusões), mudanças instantâneas de máscaras, com personagens desaparecendo em um sofá na mesma cena, e usando vídeo (pouco, mas que apoiava a ação em momentos-chave com closes). Eles corriam, e alguns até pareciam voar, como se estivessem em um trampolim, para o público e de volta ao palco, embora não houvesse trampolim algum. Interagiam com os espectadores como se fossem testemunhas ou cúmplices de um ato vil.

Eles constantemente lançavam provocações – na tela, uma nota de 5000 rublos com a imagem do Teatro Bolshoi, que nas mãos hábeis de Ângelo se transformava instantaneamente em uma nota de cem com a mesma imagem. E logo em seguida, a réplica de Ângelo, com uma máscara sombria no rosto: «Neste ponto, na Argentina, aplaudem mais forte». A plateia gargalhava e batia palmas com mais vigor.

Apresentação dos palhaços argentinos no Teatro Yermolova
Foto cedida pela assessoria de imprensa do Festival Tchekhov

Mas os palhaços não eram apenas artistas alegres e ágeis; suas piadas não eram tão inofensivas, e atingiam a todos. Em uma estrutura de metal, um deficiente se apresentava: era ao mesmo tempo engraçado e assustador – sem braços, sem pernas, ele imitava um pulverizador de água. «Parem! Inclusão é coisa barata», interrompe seu ímpeto o monge, sob cuja máscara se esconde o duque. Os palhaços satirizaram até mesmo essa forma de teatro moderno. Mas a frase «Não à OTAN» gerou entusiasmo geral. E a frase `Shakespeare é uma bobagem`, fatal para qualquer especialista em Shakespeare? Embora o espetáculo da Argentina tenha provado que William não é bobagem nenhuma, pois ninguém em lugar algum descreveu tão bem o mundo com seus vícios, paixões e paixõezinhas, corrupção e abuso de poder.

O ritmo, que os artistas imprimiram desde as primeiras falas após `Lago dos Cisnes`, foi mantido até o final sob a música inspiradora de Strauss, e isso só é possível com uma técnica performática de altíssimo nível. Nesta parte, o quinteto da Argentina foi impecável: dominam magnificamente os truques de ilusão e acrobacia (muito do espetáculo é construído sobre eles), e a dicção (incrivelmente, trabalham em um grande salão sem microfones). São livres, precisos nos personagens, leves nos movimentos e espirituosos em suas descobertas improvisadas.

Não há o que dizer, os argentinos conquistaram o público moscovita: a ruidosa e rechonchuda Isabela (que era tanto freira quanto dona de bordel em Viena). Cláudio (também o juiz), sem pelos no rosto e na cabeça, movia-se nas mãos do duque (que também era o juiz) como um fantoche obediente. E o próprio duque parecia mais um trapaceiro de cartas do que um representante da autoridade suprema. O diminuto Escal transformava-se em uma Julieta grávida. E o que dizer de Ângelo, em seu apertado terno verde e com cabelos arrepiados, que representava soberbamente um lobo em pele de cordeiro no poder – um asceta exemplar e um vilão lascivo. Em sua plasticidade e saltos, ele era ainda como um solista de balé de primeira linha.

«Baryshnikov!» — exclama o duque para Ângelo, que desaparece voando atrás dos bastidores.

Já não havia mais forças para rir, para reagir a cada nova piada ou truque, e em certo momento até pensei que a peça estava se arrastando, quando do palco ecoou: «Estamos jogando há muito tempo». A plateia apreciou a piada.

Esqueci de mencionar, a peça «Medida por Medida. A Culpa é Sua» recebeu no ano passado na Argentina quatro dos mais altos prêmios teatrais – o Prêmio María Guerrero da Associação de Amigos do Teatro Nacional Cervantes como: «melhor espetáculo», «melhor diretor», «melhor adaptação de texto» e «melhor ator masculino» (Matías Bassi), naturalmente, pelo papel de Ângelo.

Autor: Marina Raikina
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