O canal `Cultura` reexibiu recentemente uma seleção de peças aclamadas, e entre elas, destacou-se `Teatro de Bolso`. Curiosamente, a transmissão não especificava o teatro ou o elenco original. Descobriu-se que era uma produção do Lenkom de 1988, dirigida por Pyotr Stein (e não Mark Zakharov), com um elenco estelar que incluía Irina Alferova, Alexander Abdulov, Elena Shanina e Alexander Zbruev. A peça é baseada nos monólogos pungentes de Jean Cocteau.

Irina Alferova foi a primeira a atuar. Ah, pessoal, isso tem que ser visto! Ela solou de tal forma, indignou-se, lamentou-se sobre esta vida. Mas não apenas sobre a vida: ao lado dela, Abdulov estava deitado, em silêncio. Diante dele, uma beleza pura arrancava o coração, e ele jazia, calado, lendo um jornal. E esse foi todo o seu papel nesta pequena cena.
Mas Alferova… Como ela é linda! Não, que ela é bela de rosto – isso é um axioma, todos sabem, e ninguém sequer duvida. Essa é a sua característica: a atriz mais bonita do país. Bem, acontece. E sobre essa beleza, essa grande beleza, o que não foi dito? Que, além da beleza, não havia mais nada, que ela era uma atriz… mediana, nada de especial. Uma gênia da beleza pura, mas nada mais. E o maravilhoso Mark Anatolyevich não a via de perto, não lhe dava nenhum papel.
Recentemente, para o aniversário de Alexei Rybnikov, `Juno e Avos` foi exibido novamente. A cena final, com muitos figurantes e artistas, todos extasiados de felicidade, cantando `Aleluia do Amor`… E ela, Irina Alferova, apareceu uma, duas vezes… Esse era o seu `Lenkom`. Talvez Zakharov a tenha levado para o teatro como um `apêndice` de Alexander Abdulov. Um apêndice tão sedutor. E em `Os Três Mosqueteiros`, Yungvald-Khilkevich não queria convidá-la para o papel de Constance, pensava em filmar Evgenia Simonova. Mas impuseram Alferova ao diretor, novamente, provavelmente em nome de sua beleza extraordinária. Por causa disso, ela era tratada lá, para dizer o mínimo, não muito bem, e foi dublada por outra atriz, a bela Anastasia Vertinskaya.
Mas, além da beleza, alguém tentou olhar para a sua alma, extrair aquele talento? E o talento, devo dizer, é extraordinário. Assista a esta única peça, `Teatro de Bolso`, e verá que sorte Pyotr Stein ter acreditado nela, e um milagre aconteceu. A beleza, claro, não desapareceu, mas pudemos ver as capacidades de Irina Alferova, percebendo que grande talento ela possui. Abdulov, Zbruev, Shanina – atores excelentes, mas naqueles monólogos, eles apenas interpretam seus papéis de cabo a rabo. Atuam brilhantemente, mas nada mais. E Irina Alferova, pelo contrário, sofre, faz humor com lágrimas nos olhos, vive e morre diante de seu público. Talvez as relações já bastante complexas dela com Abdulov na época tenham contribuído para isso, e ela falava, gritava, chorava e fazia piadas amargas apenas para ele, o silencioso que lia o jornal. Lembram-se: `Ela anda pela vida rindo…` É mais ou menos assim.
Alferova superou a todos ali, demonstrou suas brilhantes e incríveis capacidades e… novamente, retirou-se para a sombra. Não, cinco anos depois ela deixaria o Lenkom para a Escola de Peça Contemporânea, onde teria muitos grandes papéis. E ainda assim…
São os estereótipos da vida. E agora você dirá: Alferova — as pessoas novamente começarão a admirar sua beleza, mas e daí? Não viram, ignoraram uma grande atriz russa. Os diretores simplesmente não quiseram se aprofundar nela, para trazer à tona a sua essência dramática e tragicômica. Ah, vocês, pessoas.
Apenas um espetáculo, exibido gravado no canal `Cultura`. Apenas um papel… Ela poderia ter sido uma segunda Liza Minnelli, Edith Piaf, Anna Magnani… A primeira Irina Alferova. Mas, ao que parece, passaram por ela, de lado, cativados apenas pelo rosto perfeito. Ah, vocês…
