Julia Roberts em Destaque: A Reafirmação de uma Atriz em Veneza

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No Festival de Cinema de Veneza, Julia Roberts surpreendeu em um novo e marcante papel.

Uma das maiores surpresas do 82º Festival de Cinema de Veneza foi a presença de Julia Roberts. Nunca antes ela havia pisado na Ilha de Lido, mas sua nova atuação no filme “Depois da Caçada” (“After the Hunt”) de Luca Guadagnino marca um retorno notável ao grande cinema.

Julia Roberts no filme `Depois da Caçada`

Julia Roberts no filme “Depois da Caçada”.

Para muitos espectadores, Julia Roberts será para sempre a “Linda Mulher” do filme homônimo de Garry Marshall, um clássico atemporal. No entanto, sua filmografia inclui títulos como “Lado a Lado” (“Stepmom”), “O Casamento do Meu Melhor Amigo” (“My Best Friend`s Wedding”), “Um Lugar Chamado Notting Hill” (“Notting Hill”), “Erin Brockovich”, “Onze Homens e um Segredo” (“Ocean`s Eleven”) e “O Sorriso de Mona Lisa” (“Mona Lisa Smile”).

Nos últimos anos, Roberts continuou a atuar, embora com menor intensidade e em produções menos proeminentes. Parecia que ela havia optado por uma vida mais reservada, priorizando experiências pessoais em detrimento da carreira. Contudo, graças a Luca Guadagnino, conhecido por sua perspicácia na direção de atores, Julia Roberts ressurge de forma bastante inesperada.

Inicialmente, a câmera a filma de longe, de costas ou de perfil, sem focar em seu rosto. Aos 57 anos, ela está em excelente forma e prova ser não apenas uma “garota bonita”, mas uma atriz profunda e brilhante, capaz de transmitir estados psicológicos complexos e sutis.

Sua personagem, Alma, é uma professora de filosofia em Yale, uma intelectual aberta a discussões complexas. Ela tem um marido peculiar, Frederick (Michael Stuhlbarg), que adora música alta e está sempre pronto para alimentá-la. Embora seja psicanalista, sua própria psique ocasionalmente falha.

Alma mantém uma certa distância, mas cultiva relações de confiança com seus alunos, típicas das melhores universidades americanas. Pós-graduandos frequentam sua casa e participam de festas, onde a professora atua como uma espécie de guia espiritual, informada sobre as famílias e problemas cotidianos de seus pupilos, sempre pronta a ajudar. É uma dinâmica impressionante.

Uma de suas alunas de pós-graduação, Maggie (interpretada por Ayo Edebiri, vencedora do Globo de Ouro por “O Urso”), possui uma base familiar sólida e rica, que apoia a universidade. Embora pareça ter uma boa relação com Alma e frequente sua casa, ela cometerá um ato reprovável. Maggie descobre um envelope escondido no banheiro de Alma, lê seu conteúdo e desvenda um segredo da anfitriã, o que lhe dá margem para manipulações futuras.

Incapaz de alcançar sucesso acadêmico por falta de talento, Maggie busca seus objetivos por outros meios, como acusar o jovem professor Hank (Andrew Garfield) de assédio, embora o romance dele fosse com Alma, e não com Maggie. A narrativa é sutil e muitas coisas são apenas sugeridas. O caso ganha notoriedade, seguindo um roteiro já conhecido em diversas produções sobre assédio, um tema que gradualmente perde força, mas que aqui é abordado de maneira singular e perspicaz.

Vicky Krieps e Cate Blanchett no filme `Mãe Pai Irmã Irmão`

Vicky Krieps e Cate Blanchett no filme “Mãe Pai Irmã Irmão”.

O filme retrata com precisão o ambiente universitário, as relações e a subordinação dos personagens, e os limites do que é permitido. Com o tempo, as vidas das protagonistas mudam. Elas se reencontram em um café, mas a conversa não flui, e as ofensas parecem não ter sido perdoadas. Maggie não compreende a profundidade do que fez, e Alma, mais uma vez, experimenta uma amarga desilusão. A cena final é interpretada por Julia Roberts com grande acuidade.


A Sutileza de Jim Jarmusch em “Mãe Pai Irmã Irmão”

Jim Jarmusch, outro convidado ilustre e raro (conhecido por “Sobre Mortos e Vivos” (“Dead Man”), “Café e Cigarros” (“Coffee and Cigarettes”), “Amantes Eternos” (“Only Lovers Left Alive”), “Paterson”), também aborda questões delicadas em seu filme “Mãe Pai Irmã Irmão” (assim mesmo, sem vírgulas ou pontos). Diferente das outras produções em competição, o filme cativa por sua entonação tranquila.

A ação se desenrola em três curtas-metragens, ambientados em diferentes cidades – Nova Jersey, Dublin e Paris. Cada um apresenta um cenário intimista com dois ou três personagens, todos parentes próximos que se encontram, mas, com uma única exceção, falham em se reconectar verdadeiramente.

O elenco estelar e a participação do diretor artístico da Saint Laurent, Anthony Vaccarello, de raízes italianas, naturalmente atraem a atenção, tornando difícil conseguir ingressos para o filme. Alguns podem ter se desiludido, por não estarem preparados para uma conversa tão calma sobre temas essenciais.

No primeiro segmento, filhos adultos – um filho e uma filha (Adam Driver e Mayim Bialik) – visitam o pai idoso (interpretado por Tom Waits), que vive sozinho e isolado. Eles têm suas próprias intenções, que o pai já pressente, questionando a razão de sua visita após tanto tempo de ausência. Trazem uma caixa de comida, que parece oportuna. O pai vive modestamente, oferecendo apenas água aos convidados. Não há mais nada em sua casa negligenciada. Além disso, a mãe deles gostava de beber água.

A conversa não flui, com apenas palavras protocolares. Contudo, alguns sinais sugerem que o pai não é tão pobre e infeliz quanto aparenta. Ele deliberadamente transformou sua casa em uma “toca” antes da chegada dos filhos, e suas razões podem ser apenas conjecturadas. Na verdade, o velho encena um monólogo sobre uma vida de pobreza, escondendo um bom carro e exibindo sucata. Ele mal pode esperar para que os filhos deixem sua casa.

No segundo segmento, duas filhas visitam a mãe, uma escritora popular que vive sozinha (interpretada pela bela e sempre majestosa Charlotte Rampling). A filha mais velha e respeitável é vivida por uma Cate Blanchett visivelmente rejuvenescida, quase irreal. A segunda filha, com cabelos cor-de-rosa, uma espécie de adolescente eterna, é interpretada pela tocante Vicky Krieps. Todas estão desunidas, perdidas uma para a outra, encontrando-se uma vez por ano. Sentam-se à mesa para o chá, comem doces, recebem uma porção extra de bolo da mãe e se separam, para se encontrar novamente em algum momento.

Apenas o terceiro segmento inspira alguma esperança. Um irmão e uma irmã (India Moore e Luka Sabbat) encontram-se em um café, demorando-se sobre o café. Novamente, há água na mesa, um elemento presente nas três histórias, junto a outros sinais e elementos comuns. As pequenas xícaras parecem infinitas. A conversa também é formal, e os personagens continuam a beber lentamente o resto do café. A sensação é de que esses parentes também se dispersarão a qualquer momento. Mas o roteiro toma um rumo diferente.

O irmão e a irmã chegam a um apartamento vazio, onde seus pais viveram recentemente, e recordam a infância, olhando fotografias antigas da família. Esses dois parecem estar sozinhos no mundo. Ninguém mais experimentará algo semelhante com cada um deles. Os laços de sangue se mostram fortes, embora talvez seja apenas um raro lampejo de proximidade, o último encontro nostálgico.