Pesquisadores russos desenvolveram um modelo aprimorado de queimadura química da córnea em camundongos. A expectativa é que essa nova abordagem permita a criação de métodos de tratamento inovadores para humanos, capazes de evitar a perda de visão após tais lesões traumáticas.
Queimaduras químicas na córnea representam um dos desafios mais complexos e devastadores na oftalmologia. Frequentemente, elas resultam em danos irreversíveis aos tecidos, como a formação de cicatrizes opacas e o crescimento descontrolado de vasos sanguíneos na córnea, culminando na perda permanente da visão. Os tratamentos atuais, que incluem anti-inflamatórios ou medicamentos para prevenir a cicatrização, muitas vezes são insuficientes e podem causar efeitos colaterais graves. Em casos mais severos, o transplante de córnea é a única opção, mas mesmo assim, há riscos significativos de rejeição ou turvação do transplante, comprometendo o sucesso a longo prazo.
A dificuldade em desenvolver terapias mais eficazes é agravada pela alta margem de erro das modelos de queimadura química existentes. Nessas modelos, onde substâncias alcalinas ou ácidas são aplicadas nos olhos de animais de laboratório, a precisão das medições pode ter uma variação considerável, atingindo aproximadamente 40%, o que dificulta a obtenção de resultados consistentes e replicáveis.
Cientistas da Universidade Estatal de Lomonosov, em Moscou, otimizaram a modelo de queimadura química da córnea em camundongos, aprimorando significativamente a metodologia experimental e, consequentemente, reduzindo de forma substancial a margem de erro. Os pesquisadores utilizaram hidróxido de sódio (álcali) em diferentes concentrações para observar distintos desfechos de cicatrização. A hipótese era que uma baixa concentração de álcali promoveria a regeneração completa da ferida, enquanto uma alta concentração levaria à formação persistente de cicatrizes.
Com este modelo aprimorado e mais preciso, os cientistas conseguiram monitorar detalhadamente as alterações celulares e moleculares na córnea dos camundongos. Eles descobriram que, com uma concentração de 20 gramas de álcali por litro, a quantidade de miofibroblastos – células que auxiliam tanto na cicatrização de feridas quanto contribuem para a formação de cicatrizes – diminuía já sete dias após a queimadura. Notavelmente, após três semanas, essas células desapareciam completamente, acompanhado pela restauração total da transparência da córnea.
Contrariamente, ao utilizar uma concentração de álcali mais alta, de 40 gramas por litro, os miofibroblastos persistiram mesmo após 21 dias, inclusive no endotélio (camada interna da córnea), resultando em sua turvação permanente. A alta concentração de hidróxido de sódio também provocou o rápido e agressivo crescimento de vasos sanguíneos e linfáticos na camada espessa da córnea. Já no sétimo dia do experimento, esses vasos estavam recobertos por células musculares lisas, o que levou à sua estabilização e à perda definitiva da transparência da córnea, indicando um prognóstico muito pior.
Os dados obtidos são de grande relevância para a medicina experimental e prática. Eles aprofundam a compreensão dos mecanismos naturais de recuperação da córnea após lesões, abrem caminho para o teste de novos medicamentos que previnam a cicatrização e pavimentam o desenvolvimento de métodos inovadores que acelerem a regeneração das células da córnea, oferecendo esperança para pacientes com queimaduras oculares.
