Sobre a influência da arte estrangeira nos mestres russos do século XVII.
No Átrio do museu-reserva “Kolomenskoye”, em Moscou, foi inaugurada a exposição “Arte para o Czar”, que apresenta uma coleção multifacetada. Entre os itens em exibição estão ícones, pinturas, azulejos decorativos (izraztsy), vasos e até tapetes iranianos. A exposição demonstra como esses diversos objetos de arte estão interligados.

A nova exposição em Kolomenskoye explora a interação entre a arte russa, ocidental e oriental no século XVII. A influência de culturas estrangeiras intensificou-se após a Era das Grandes Navegações, quando o mundo se tornou mais interconectado e o comércio, mais ativo. Artistas russos, tendo a oportunidade de conhecer trabalhos de outros países, começaram a incorporar em suas criações motivos e elementos estrangeiros mais sofisticados. Este período sucedeu a arte mais austera e de caráter religioso da Escola de Moscou na época de Ivan, o Terrível, quando os mestres se concentravam em torno de Moscou. Durante o reinado do czar Aleixo Mikhailovich, ocorreram mudanças significativas e uma reavaliação na arte.
A aparente diversidade da exposição é, na verdade, uma ideia curatorial destinada a demonstrar as origens das imagens e ornamentos na arte figurativa e decorativa russa. Por isso, obras de mestres russos do século XVII são exibidas ao lado de vasos chineses, tapetes persas, têxteis turcos e pinturas europeias, mostrando sua influência.
O comércio de têxteis no século XVII era muito ativo. A Rússia comprava seda e veludo na Turquia e no Irã, pois a produção própria desses tecidos demorou a se desenvolver. Tapetes persas, que eram um elemento importante na decoração de interiores, foram uma fonte de ornamentos incomuns. A influência da arte oriental também é visível nos azulejos decorativos (izraztsy) de Moscou, adornados com o motivo do cravo turco, que também veio de padrões têxteis.
A arte europeia também exerceu influência. Fontes de inspiração incluíam edições ilustradas da Bíblia, contendo gravuras detalhadas. Embora os livros fossem caros, os artistas tinham acesso a eles e emprestavam de lá tramas inteiras ou elementos individuais, como figuras ou detalhes arquitetônicos. Observadores atentos notarão representações incomuns e estranhas de arquitetura em ícones, por exemplo, formas de templos europeus em vez das tradicionais cúpulas russas em forma de tenda, como nos ícones “A Coroação de Espinhos” e “A Carregada da Cruz”. As colunas douradas barrocas da igreja de São Cosme e Damião em Nizhnie Sadovniki também são um exemplo dessa influência. Na exposição, são apresentadas tanto obras de mestres russos quanto as supostas fontes estrangeiras de sua inspiração, o que permite visualizar esses empréstimos.
Um fato interessante deste período é o enriquecimento do vocabulário da língua russa, especialmente no que diz respeito aos nomes das cores. A cor vermelha, sendo muito importante, tinha inúmeros tons. Na exposição, isso é abordado de forma interativa: os visitantes são convidados a adivinhar a cor pelo nome histórico. Por exemplo, “brúsnichny” (de cranberry) não significava vermelho escuro, mas a cor da folha de cranberry, enquanto “gvozdíkovy” (de cravo) era cinza, e não vermelho. É possível que esses nomes fossem pronunciados com acento diferente, por exemplo, na primeira sílaba.
