
Cientistas da Universidade de Samara, trabalhando em colaboração com uma equipe científica internacional, forneceram novas confirmações para a hipótese de que a vida na Terra pode ter se desenvolvido a partir de substâncias provenientes do espaço. Sua descoberta revela que o ácido láctico, um composto vital para o metabolismo, pode se formar em gelos cósmicos. Esses resultados significativos foram publicados na prestigiada revista Journal of the American Chemical Society.
Os elementos químicos mais abundantes no universo são hidrogênio (H), hélio (He), nitrogênio (N), carbono (C) e oxigênio (O). É notável que a vida “baseada em carbono” na Terra é construída predominantemente a partir de quatro desses elementos. Por exemplo, o corpo de um adulto é composto, em média, por 65% de oxigênio, 18% de carbono, 10% de hidrogênio e 3% de nitrogênio, que fazem parte de diversos compostos orgânicos, enquanto os 4% restantes correspondem a outros átomos. Essas informações foram divulgadas pelos pesquisadores da Universidade Nacional de Pesquisa de Samara em homenagem ao Acadêmico S.P. Korolev.
Ivan Antonov, professor assistente do Departamento de Óptica e Espectroscopia da Universidade de Samara, explicou que, para a formação de componentes orgânicos a partir de átomos dispersos e substâncias de estrutura simples, é necessária sua proximidade no espaço e uma determinada influência energética externa. Ele também observou que a detecção de tais moléculas complexas no espaço cósmico por métodos astronômicos modernos é consideravelmente difícil. Portanto, segundo ele, a teoria do “transporte” cósmico dos primeiros compostos orgânicos não pode ser provada unicamente com base em observações astronômicas.
Em colaboração com colegas dos EUA, especialistas da Universidade de Samara conseguiram comprovar experimentalmente a possibilidade de formação de ácido láctico no espaço — uma substância que, entre outras coisas, é produzida nos tecidos musculares durante exercícios intensos. A pesquisa confirma que o ácido láctico pode ser formado a partir de substâncias de estrutura mais simples e com menos ligações químicas.
“Nós demonstramos que, sob a ação de raios cósmicos sobre gelo composto de álcool etílico e dióxido de carbono, realmente se formam moléculas mais complexas: ácido láctico e monoetil éter de ácido carbônico, que possui a mesma composição química, mas difere em estrutura e propriedades. Esses compostos são de grande interesse para a radioastronomia, e nossa confirmação de sua formação oferece aos astrônomos novas pistas sobre quais outras moléculas poderiam ser procuradas no cosmos”, explicou Antonov.
Segundo o especialista, essa linha de pesquisa apresenta objetivos muito ambiciosos: identificar e verificar experimentalmente os mecanismos de formação das principais classes de biomoléculas (os blocos construtores de proteínas, gorduras, carboidratos e ácidos nucleicos) no espaço cósmico, sob a influência da radiação e a partir de moléculas simples.
“A realização dessas tarefas pode alterar profundamente nossas concepções sobre a origem da vida, deslocando o foco da Terra para o Cosmos, e lançar luz sobre os processos de formação da vida em geral, bem como sobre a questão: estamos sozinhos no Universo?”, acrescentou o cientista.
A pesquisa foi conduzida utilizando uma instalação científica única dedicada ao estudo de processos químicos em condições de espaço profundo, criada no Centro de Astrofísica Laboratorial do Ramo de Samara do Instituto Físico da Academia Russa de Ciências (SF FIAN) com o apoio da megadoação nº 075-15-2021-597.
