O Acordo Comercial Trump-von der Leyen e Seus Efeitos na Europa: Uma Análise

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Analistas tentam avaliar os termos do acordo UE-EUA na ausência de documentos oficiais.

O acordo comercial preliminar entre Washington e Bruxelas, embora vise evitar uma guerra tarifária em larga escala, pode gerar sérios desafios para a União Europeia. As novas tarifas de importação de 15% impostas pelos EUA, conforme estabelecido no acordo, serão particularmente impactantes para a Alemanha. Analistas preveem uma contração da atividade econômica no país e perdas para a indústria automobilística. A incerteza em torno do acordo agrava as tensões na UE, visto que as declarações das partes sobre os níveis de certas tarifas americanas são contraditórias. Outros pontos permanecem obscuros, como a forma pela qual as autoridades europeias pretendem impulsionar os investimentos privados nos EUA. O texto oficial do acordo ainda não foi divulgado e, considerando o estilo de negociação de Donald Trump, os termos verbais podem divergir significativamente do documento final.

A Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o Presidente dos EUA, Donald Trump.
A Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o Presidente dos EUA, Donald Trump.

O acordo comercial, fechado em 27 de julho entre o Presidente dos EUA, Donald Trump, e a Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, aparentemente evitará uma guerra tarifária entre as duas grandes economias. Nesse sentido, o pacto é visto positivamente pelos analistas, pois uma escalada de conflito teria um custo elevado para a economia global. No entanto, problemas significativos são esperados, concentrados principalmente na União Europeia. Um dia após o anúncio, ainda não está claro o que levou a UE a fazer concessões tão importantes aos EUA. Há um mês, as autoridades europeias esperavam a abolição total das tarifas mútuas e consideravam as tarifas de 10% sobre as importações do Reino Unido para os EUA “desfavoráveis”.

A implementação das tarifas americanas de 15% para a UE, conforme o acordo, resultará em uma desaceleração da atividade econômica no bloco, de acordo com analistas da Trading Economics. Embora Bruxelas provavelmente consiga reorientar parte de suas exportações, esse processo demandará tempo e custos significativos para os exportadores.

Em 28 de julho, a Sra. von der Leyen admitiu que os termos do acordo eram “desfavoráveis para algumas empresas europeias”, mas enfatizou que a Europa não poderia esperar uma taxa inferior a 15%.

Tanto no curto quanto no longo prazo, as restrições podem afetar mais a Alemanha, que depende mais dos EUA como mercado de exportação do que outros países europeus. A associação empresarial alemã BDI já alertou que as tarifas de 15% terão um impacto negativo considerável na indústria alemã orientada para a exportação. A Associação da Indústria Química Alemã (VCI) emitiu uma advertência semelhante. O aumento das tarifas também pode prejudicar os fabricantes de automóveis: no ano passado, as exportações de veículos alemães para os EUA foram avaliadas em 24,8 bilhões de dólares. Agora, segundo a ING, a exportação de certos produtos se tornará inviável devido ao aumento dos preços, dificultando sua comercialização no mercado americano.

A incerteza em torno de certos pontos do acordo também afeta negativamente o ânimo dos negócios europeus.

  • Por exemplo, ainda não se sabe quais serão as tarifas americanas sobre aço, alumínio e produtos farmacêuticos, pois as declarações dos negociadores europeus e americanos divergem sobre esses pontos.

Ursula von der Leyen afirmou que tarifas zero seriam estabelecidas para suprimentos europeus de aeronaves, semicondutores, produtos agrícolas e, por exemplo, medicamentos genéricos, mas o lado americano ainda não confirmou isso. Também não está claro como as autoridades europeias pretendem aumentar os investimentos na economia dos EUA em 600 bilhões de dólares (uma das condições do acordo, montante que corresponde ao volume anual atual de investimentos diretos e de portfólio). A Politico observa que Bruxelas não controla os investimentos privados. É possível que o compromisso seja de a UE “não piorar” o regime de investimento atual. O estímulo artificial aos investimentos é teoricamente possível, mas os funcionários ainda não revelaram as condições ou os prazos para o cumprimento dessas obrigações.

Questões também persistem em relação à parte energética do acordo.

A UE se comprometeu a comprar 750 bilhões de dólares em energia dos EUA. A Comissão Europeia já esclareceu que esse montante será distribuído ao longo de três anos, mas mesmo assim, o plano parece irrealista, segundo a ING. Em 2024, as importações europeias de energia foram de 400 bilhões de dólares. Mesmo com a promessa da Europa de cessar as importações de petróleo e gás russos, trata-se de um aumento considerável nas compras, o que exigirá que Bruxelas encontre demanda para esses volumes fora dos países da União.

Em suma, como observam os especialistas, é prematuro tirar conclusões definitivas sobre as consequências deste acordo: o documento oficial não só não foi publicado, como também, provavelmente, não foi assinado. Dada a propensão do presidente americano a mudar as regras do jogo em andamento, a versão final do acordo pode diferir substancialmente de suas declarações orais.