Johan Otto von Spreckelsen (1929-1987), um arquiteto dinamarquês pouco conhecido fora de seu país e admirador da abstração e da geometria pura, havia projetado apenas pequenas igrejas. No entanto, em 1983, para surpresa geral e sua própria, foi selecionado para projetar o Arco da Defesa em Paris. Esta ambiciosa obra não só era concebida como uma estrutura aberta ao mundo, mas também deveria completar a perspectiva que se estende das Tulherias até o Arco do Triunfo napoleônico.
Este projeto monumental era, em grande parte, uma manifestação da ambição de Mitterrand de marcar sua presença no eixo histórico parisiense, coincidindo com o bicentenário da Revolução Francesa (época em que também se reformou o Louvre e se ergueu a Ópera da Bastilha). O filme de Stéphane Demoustier, O Arquiteto (intitulado originalmente L’inconnu de la Grande Arche), começa com o presidente e sua comitiva. Mitterrand apresenta o projeto como uma iniciativa pessoal, revisando com orgulho o design vencedor, e só depois de um tempo se lembram da existência de Spreckelsen, o arquiteto desconhecido que eles até têm dificuldade em localizar.
A trama se desenrola com elementos de comédia e drama, mostrando os enormes desafios que o dinamarquês enfrenta para executar o edifício conforme seu design original, uma tarefa que rivaliza com os trabalhos de Hércules. Não é Mitterrand diretamente, mas o aparato burocrático que o cerca, quem transforma o processo em uma série interminável de obstáculos. Aquilo que a lei não proíbe, frustra-se pela falta de imaginação ou pelo mesquinho prazer dos medíocres em ofuscar o talento alheio.
O filme estabelece conexões com obras como The Brutalist e A Fonte da Vida (adaptação do romance de Ayn Rand), que exploram a figura do arquiteto incompreendido. Cenas chave incluem a visita de Spreckelsen (interpretado por Claes Bang) às pedreiras de mármore de Carrara, suas ascensões vertiginosas que parecem superar sua própria estatura, e a presença de sua esposa (Sidse Babett Knudsen) tentando guiá-lo para uma postura mais pragmática, mais ancorada na realidade.
Apesar do respeito inabalável do arquiteto por seus clientes e seu esforço para preservar a integridade de seu design, o filme de Demoustier carece de um tom épico. A verdadeira história de Spreckelsen corrobora isso: as constantes fricções com a equipe francesa o levaram a abandonar a direção da obra em 1986. Ele faleceu no ano seguinte, e dada sua relativa juventude, é plausível que o enorme desgaste associado a este projeto tenha contribuído para sua morte precoce.
Demoustier retrata Spreckelsen como um indivíduo e profissional íntegro confrontado por uma burocracia que sufoca a criatividade. No entanto, ele evita intencionalmente qualquer tentativa de glorificá-lo como herói. Diante da imponente máquina política, seus esforços para manter a pureza de sua visão e completar uma obra-prima estão condenados ao fracasso: Mitterrand está longe de ser um Júlio II, embora Michelangelo também tenha buscado inspiração em Carrara.
Ambientado nos anos oitenta, o filme transmite a inevitável derrota do artista sensível frente à autoridade dos gabinetes. Por isso, seus esforços são por vezes admirFáveis e outras, dramaticamente absurdos. O fato de Spreckelsen dedicar mais tempo a reuniões, negociações e lutas de poder do que ao trabalho na obra, deixa claro ao espectador, muito antes do final, que esta é uma crônica autêntica e rigorosa sobre a criação de monumentos, a gestão do dinheiro público e os criadores a quem é impedido de criar.
