Não é apenas uma questão de taxa de câmbio
O Ministério da Economia da Rússia apresentou duas projeções de médio prazo até 2028: uma básica e uma conservadora. Ambos os cenários preveem a redução da inflação para 4% até 2026 e uma subsequente flexibilização da taxa de juros básica do Banco da Rússia. Contudo, analistas independentes alertam que atingir essa meta pode ser dificultado pela fragilidade do rublo e pela diminuição da receita de exportação em moeda forte. Eles sugerem que é principalmente por meio desse canal que os choques econômicos externos mais impactam os preços internos, o que, por sua vez, definirá a trajetória da política monetária nos próximos anos.
A projeção básica baseia-se em um cenário externo relativamente favorável: o petróleo Brent a $70–72 por barril, uma redução gradual do desconto do petróleo Urals e um crescimento moderado das receitas de exportação. O cenário conservador, por outro lado, estima o petróleo entre $55–60 por barril e um aumento das restrições de sanções externas.
A principal diferença entre os cenários reside nos volumes de comércio exterior. Na projeção básica, as exportações deverão atingir $505 bilhões até 2028, enquanto na conservadora, apenas $413 bilhões. As importações, em ambos os casos, mostram um crescimento moderado, chegando a $341 bilhões e $322 bilhões, respectivamente. Assim, a balança comercial expande-se no cenário básico e contrai-se no conservador.
Formalmente, a trajetória da inflação e da taxa de juros em ambos os cenários é idêntica: a inflação retorna à meta de 4% até 2026, e as condições monetárias são gradualmente flexibilizadas.
No entanto, essa simetria levanta questões, e os especialistas observam um aumento dos riscos inflacionários relacionados à taxa de câmbio do rublo e ao comércio exterior.
Por exemplo, no monitoramento econômico de setembro do Instituto Gaidar, aponta-se que, apesar da desaceleração esperada da inflação para 8,1% até agosto de 2025, os riscos inflacionários permanecem elevados. Os economistas do instituto destacam fatores como a recuperação do crédito, a expansão do déficit orçamentário e a tensão no mercado de trabalho. Contudo, o fator principal é o enfraquecimento do rublo, impulsionado pela desaceleração da economia global e pela queda dos preços do petróleo. Em sua avaliação, é por meio da taxa de câmbio que os choques externos mais rapidamente se transmitem aos preços internos e às expectativas inflacionárias.
Uma conclusão semelhante é apresentada na análise do BOFIT — um instituto do Banco Central da Finlândia especializado na análise de economias em transição. Os especialistas do BOFIT observam que, desde o final de junho de 2025, o rublo perdeu cerca de 6% em relação ao dólar devido à diminuição da receita de exportação e ao aumento das importações. Mais da metade do comércio exterior da Rússia é agora conduzida em rublos, e os pagamentos em dólares e euros caíram para um mínimo histórico, em meio à redução do superávit comercial da Rússia em moedas livremente conversíveis. Isso significa que, mesmo mantendo os volumes físicos de comércio, a oferta de moeda forte no mercado interno diminui. A taxa de câmbio torna-se mais sensível à deterioração do cenário externo e às notícias de sanções, e qualquer desvalorização se traduz rapidamente em preços de bens importados e componentes.
A mudança na estrutura monetária do comércio exterior é um fator relativamente novo que acentua a dependência tradicional da Rússia em relação aos preços globais do petróleo. Anteriormente, a queda nos valores de exportação era parcialmente compensada pelo fluxo de receita em dólares e euros. Agora, uma parcela crescente dos contratos é denominada em rublos e yuans, o que significa uma redução do volume de moeda líquida disponível no mercado interno. Isso aumenta a volatilidade da taxa de câmbio e a probabilidade de que choques externos, mesmo de curto prazo, se reflitam rapidamente na inflação. Para o Banco da Rússia, isso implica a necessidade de manter condições monetárias restritivas por mais tempo do que o previsto no cenário básico do Ministério da Economia.
