O Gato Matroskin, na interpretação de Tabakov, representava a ideia de “Juche”, como ele mesmo dizia: a autossuficiência.
Em celebração ao 90º aniversário de Oleg Tabakov, o Canal Kultura dedicou sua programação a exibir diariamente espetáculos com a participação do lendário ator. Entre as apresentações, destacou-se uma das suas primeiras obras no Teatro “Sovremennik”, “Uma História Comum”, onde Tabakov brilhantemente interpretou Alexander Aduyev.

Inicialmente, Aduyev é retratado como um jovem idealista, etéreo, sincero e ingênuo, com uma aparência correspondente. No entanto, a vida o transforma drasticamente: no final, o personagem se torna uma pessoa profundamente cínica e desagradável, com bochechas caídas e queixo duplo. Essa metamorfose demonstra o poder de atuação de Tabakov. Em 1970, o ator tinha 35 anos.
Coincidentemente, o canal OTR exibiu o filme “A Metamorfose” com Evgeny Mironov no papel principal, um dos mais destacados alunos de Tabakov. Nesta adaptação kafkiana, o personagem de Mironov transforma-se em um inseto gigante, mas mantém toda a sua humanidade — inteligência, consciência e sentimentos. Essa foi a metamorfose do melhor aluno de Tabakov, Zhenya Mironov. E nisto reside a verdadeira felicidade, o sentido e a verdade: deixar para trás pessoas assim, seguidores e continuadores.

Além das peças e filmes, o canal Kultura exibiu também três episódios de “Três de Prostokvashino”. Em um ciclo de entrevistas documentais, Anatoly Smelyansky disse a Tabakov: “Enquanto alguns artistas são lembrados por Hamlet, sobre você dirão: ele é Matroskin!” Contudo, poucos foram capazes de criar um Gato de desenho animado que se tornasse uma obra-prima da arte cênica. Exceções notáveis incluem Evgeny Leonov como Ursinho Pooh, Iya Savvina como Leitão (com um cumprimento à voz inimitável de Bella Akhmadulina), Mikhail Kozakov com seu Elefante de “Exercício para o Rabo”, Faina Ranevskaya (Freken Bok), Vasily Livanov como Karlsson e Anatoly Papanov, que, embora dissesse apenas: “Só espera!”, o fazia com nuances incríveis e distintas a cada vez.
Naturalmente, o legado de Tabakov não se resume apenas ao Matroskin; pelo contrário, ele deixou uma vasta paleta de personagens magníficos, de Oblomov a Iskremas em “Brilha, Brilha, Minha Estrela” ou o triste e trágico palhaço de “Kashtanka”. Afinal, o grande Smoktunovsky não será lembrado apenas por Hamlet, mas como seria ele sem Detochkin?!
O Gato Matroskin, na interpretação de Tabakov, materializa a ideia de “Juche”, como ele próprio dizia, ou seja, a autossuficiência. Além disso, Matroskin pode ser visto como um arauto, um mestre de obras da Perestroika, um grande defensor da propriedade privada. Como Uspensky escreveu, a mãe diz: “Com um Matroskin assim, o Tio Fyodor está seguro como atrás de uma parede de pedra”. E o pai: “Se eu tivesse conhecido Matroskin antes, talvez nunca tivesse me casado”. Sim, Matroskin não é um gato, mas um ser humano, um homenzarrão, prático, inteligente; bigodes, patas e rabo — eis os seus documentos. Um típico Oleg Palych, apenas sem patas e sem rabo. Um dos seus numerosos retratos. Uma imagem que se tornou um clássico russo.
