Pesquisadores revelaram as surpreendentes ligações da comédia `Operação Y` com Charlie Chaplin e até mesmo diplomatas ingleses.
Decorridos 60 anos desde a estreia da icónica comédia soviética `Operação Y e Outras Aventuras de Shurik`, que permanece entre os filmes mais amados, ainda é possível descobrir mistérios não desvendados na obra-prima de Gaidai. Estes segredos estão ocultos em inscrições e documentos que aparecem brevemente em cena, mesmo que muitos conheçam as três novelas do filme de cor.

Elementos de adereços e cenários do filme contêm informações textuais que, embora apareçam em cena, muitas vezes escapam à atenção dos espectadores. Contudo, nestas letras, números e suas combinações, por vezes, reside um significado oculto, uma lógica subtil ou até uma ironia, habilmente inserida por Leonid Gaidai, que era um mestre reconhecido em tais `easter eggs`.
Um Tapa no Rosto do `Vagabundo Charlie`
Começamos a nossa análise com um objeto de cena que tem um significado especial para o autor deste texto: o jornal. Na primeira novela, `O Companheiro`, Shurik utiliza um exemplar deste meio de comunicação impresso para disciplinar um arruaceiro que havia sido condenado a quinze dias de prisão e estava a agir de forma excessivamente insolente.
Nas bem conhecidas cenas, Verzilla, após uma refeição farta, deita-se para uma sesta num leito improvisado no meio do estaleiro, sugerindo a Shurik que `conte como as naves espaciais sulcam… o Teatro Bolshoi`. Isto desperta no estudante, que trabalha para viver (inclusive para pagar o aluguel do seu quarto, como mostrado na terceira novela), o desejo de `dar uma tareia` ao insolente. Como instrumento de retribuição, o estudante de óculos loiro utiliza o seu jornal: ele enrola-o e espera o momento em que uma mosca pousa no rosto de Verzilla, já a dormir…
De acordo com o roteiro, o personagem de Alexander Demyanenko tenta várias `agressões` ao rosto do seu parceiro. Por isso, a duração do episódio com a `mão punitiva` de Shurik é considerável. Ao examinar atentamente estas cenas, é possível notar que diferentes jornais são usados e se alternam.
Isso é perfeitamente compreensível do ponto de vista prático. Uma vez que cada cena era filmada em várias tomadas, Shurik-Demyanenko tinha de enrolar o jornal repetidamente, transformando-o numa `arma`, e depois dar-lhe sucessivas palmadas na testa e nas bochechas de Verzilla-Smirnov. O papel de jornal frágil, claro, não aguentaria tal esforço. Por isso, os aderecistas provavelmente tiveram de preparar vários exemplares.
No entanto, há outra observação interessante: no filme, apareceram diferentes edições de jornais. E os títulos que foi possível decifrar revelaram-se bastante expressivos e harmonizavam surpreendentemente com o que acontecia no ecrã. Há todas as razões para crer que se tratavam de mensagens ocultas, ou `easter eggs`, de Gaidai.
Vamos aos detalhes. Um dos pesquisadores deste filme afirma que, ao analisar cuidadosamente as cenas onde Shurik segura o jornal enrolado, ele notou o título «Rumo a Novas Vitórias na Construção do Comunismo». Concorde-se que tal slogan, no contexto do conflito entre dois antagonistas-construtores, adquire um significado bastante irónico.
Em seguida, surge outro exemplar de jornal (talvez o mesmo ou já um substituto), que Shurik usa como principal instrumento de vingança, esbofeteando o baderneiro no rosto. A certa altura, de debaixo do canto rasgado do jornal enrolado, as letras do seu título são visíveis. A tipografia característica e bem conhecida não deixa dúvidas — é o «Pravda». Noutro plano, lê-se o título de um artigo: «Demonstração de Poder e Unidade». Foi com esta `demonstração` que o protagonista principal exibiu a sua força e vantagem sobre o insolente.
E, por fim, vejamos outro exemplar de jornal claramente distinto, capturado em película. Este `personagem de papel` aparece logo no início da cena de `matar a mosca` e permanece no ecrã por mais tempo: durante vários segundos, o espectador vê Shurik enrolar nervosamente as folhas do jornal, transformando-o num `instrumento de ataque`. Ao mesmo tempo, é claramente legível (embora virado verticalmente) o título no meio da página — «Ódio ao Fascismo». Tal formulação também é pertinente e confere um significado profundo adicional aos eventos que se desenrolam no ecrã.
Aqui vale a pena mencionar mais um detalhe. O exemplar recém-analisado, que o personagem de Alexander Demyanenko segura, pode ser identificado com precisão. É a edição noturna do «Izvestia» de 30 de setembro de 1964 (as filmagens das cenas em que Verzilla é agredido com o jornal ocorreram a 12 de novembro de 1964 em Odessa, o que coincide cronologicamente com a data do jornal). Quanto ao material publicado sob um título tão chamativo, era um verdadeiro exclusivo, o `destaque da edição`, como se diria hoje. O «Izvestia» obteve parte das memórias de um dos atores mais famosos do mundo. O jornalista conseguiu familiarizar-se com esta raridade, folheando os arquivos preservados de 60 anos atrás. Na introdução editorial, lia-se: «Continuamos a publicação de excertos de `Minha Autobiografia` de Charles Chaplin. Hoje, você aprenderá sobre o trabalho do artista no filme `O Grande Ditador` e sobre sua atitude em relação à guerra».
A redação obteve fragmentos das memórias do grande comediante graças ao seu correspondente especial em Londres (veteranos afirmam que Chaplin recebeu 4 quilos de caviar preto como pagamento). Trechos de `Minha Biografia` foram publicados em três edições do «Izvestia». Uma dessas edições foi imortalizada na icónica comédia de Gaidai. É provável que o próprio `Vagabundo Charlie` tivesse apreciado tal manobra do realizador.
A Resistência da Eletrotécnica
Uma questão intrigante sobre a novela `A Obsessão`: qual era a disciplina do exame de Shurik?
Há muitas opiniões a esse respeito. Vamos tentar esclarecer.
Segundo o protagonista, ele estuda no Instituto Politécnico, mas não especifica a faculdade. Os roteiristas não deixaram claro qual exame se aproximava, provocando os eventos de `A Obsessão`, e o realizador parece ter decidido confundir ainda mais o público.
O colega de Shurik, apelidado de Carvalho, que preferiu o acesso fácil e ilegal à informação por meio de equipamentos de rádio avançados em vez de estudar, dita ao seu assistente uma pergunta do bilhete de exame: «Bilhete número sete. Primeira pergunta. Princípio de funcionamento do sincrocíclotron». Em resposta, ele recebe as informações necessárias pelo rádio: «Respondendo à primeira pergunta do bilhete sete. O funcionamento do sincrocíclotron baseia-se no princípio de aceleração de partículas carregadas por um campo magnético…». Assim, pode-se supor que tanto Carvalho quanto o personagem de Alexander Demyanenko teriam um exame de física geral ou até mesmo física nuclear com o professor, ironicamente chamado de Bardana.
Uma cena com dois estudantes `nerds`, escrevendo colunas de fórmulas no corredor do dormitório — primeiro na porta do quarto de Carvalho, e depois no chão debaixo dela — adiciona mais confusão às especulações dos entusiastas sobre a matéria do exame do estudante de óculos. Observadores atentos concluíram que a maioria dessas equações se relaciona a cálculos de termodinâmica. Contudo, o filme não sugere que esses rapazes sejam colegas de Shurik. Talvez sejam apenas vizinhos de Carvalho no dormitório?
A hipótese mais convincente é que os personagens principais da novela fariam um exame de eletrotécnica. Uma pista sobre isso é encontrada em dois episódios da comédia. Primeiro, vemos uma multidão de estudantes a ler avidamente as anotações emprestadas de um colega de Shurik. Um dos jovens sedentos por conhecimento até subiu numa árvore, de onde podia ver o conteúdo do caderno com binóculos. É através dos seus olhos, como se por um poderoso dispositivo ótico, que o espectador vê as páginas abertas do caderno.
As páginas aparecem em close-up por um segundo, então, pausando o quadro, é possível ver algo. No topo, há um diagrama elétrico, e ao lado, a fórmula V1 – V2 = Iy x Ry. Esta é uma forma da famosa Lei de Ohm, que afirma que a corrente que flui através de um condutor é diretamente proporcional à tensão aplicada nas suas extremidades e inversamente proporcional à sua resistência. Segue-se um texto também muito eletrotécnico: «Nesta forma, o aparelho é chamado de Voltímetro (por alguma razão, com letra maiúscula).»

Outro episódio ocorre no elétrico. Shurik descobre acidentalmente que está perto de uma rapariga (que mais tarde se revela chamar Lida), que tem nas mãos as anotações de aula de que ele tanto precisa. A câmara volta a mostrar o precioso caderno em ecrã inteiro e… deparamo-nos com uma `dupla personalidade`: vemos exatamente as mesmas anotações, escritas com a mesma caligrafia e abertas na mesma página! No topo, um diagrama, ao lado, a Lei de Ohm… Desta vez, outras anotações são visíveis: «…o aparelho é chamado de Voltímetro. Em resumo, podemos dizer o mesmo: um dispositivo de medição térmica pode ser usado como amperímetro e como voltímetro… A resistência total do amperímetro RA é determinada pela relação 1/RA = 1/R3 + 1/RY».

Então, afinal, o exame era de eletrotécnica? Mas o sincrocíclotron não tem nada a ver com isso. Ou será que Carvalho se confundiu e pegou as dicas do amigo para uma matéria completamente diferente?
Infelizmente, mesmo essa hipótese paradoxal não permite uma conclusão definitiva, e na novela, nem tudo é tão claro. Poucos minutos depois, vemos Shurik e Lida, ao descerem do elétrico, continuarem a ler o caderno enquanto atravessam a multidão. Na confusão, o personagem de Alexander Demyanenko perde de vista a dona do valioso caderno, e quando a reencontra, percebe que ela tem outro caderno nas mãos. A imagem das suas páginas, que aparece por um segundo, revela que as anotações nelas contidas são sobre… resistência dos materiais! O texto inclui termos e formulações específicas do curso de engenharia de materiais: «Torção… Flexão… Deformações combinadas são experimentadas por uma cambota…», ao lado de diagramas de uma viga carregada, uma junta rebitada…
É possível que, como as cenas de leitura do caderno no elétrico e na rua foram filmadas em épocas e até cidades diferentes (parte em Moscovo no final do verão, e parte em Odessa em novembro), o caderno original de `eletrotécnica` tenha sido perdido e substituído por outro caderno com anotações. E lá, em vez de eletrotécnica, estava resistência dos materiais.
A Biblioteca à Noite
Um dos diálogos mais memoráveis para o público acontece na novela final da comédia, que retrata uma tentativa fracassada de encenar um roubo.
O organizador do assalto, o diretor corrupto da base, Petukhov, decide treinar o trio criminoso no seu próprio barracão antes do `grande trabalho`. Após um primeiro ensaio bastante frustrante, ele faz uma `reunião de avaliação`. Avaliando as ações de Covarde, encarregado de desativar a idosa guarda com clorofórmio, Petukhov diz: «Você deve abordar a velha como um transeunte e chamar a atenção com uma pergunta simples e natural. E o que você perguntou?» — «Como faço para chegar à biblioteca?» — «Às três da manhã? Idiota!!!»

Contudo, o diretor da base no filme estava errado. E Covarde não é de todo um idiota sem cérebro. O realizador Leonid Gaidai, por sua própria vontade, decidiu `interceder` pelo personagem de Georgy Vitsin, confirmando a pertinência de tal pergunta. Mas ele fê-lo com antecedência, ainda na novela anterior, e disfarçou tão astutamente a confirmação da `verdade de Covarde`, que a esmagadora maioria dos espectadores…
