Objetos Interestelares: Por Que um Suposto ‘Navio Alienígena’ Preocupa Seriamente os Cientistas?

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Objeto interestelar 3I/ATLAS, detectado em 1º de julho de 2025

Objeto interestelar 3I/ATLAS, detectado em 1º de julho de 2025.

© NASA

Um objeto interestelar recém-descoberto, que alguns, como o astrofísico Avi Loeb, sugerem poder ser uma nave espacial se aproximando furtivamente da Terra, está gerando preocupações na comunidade científica. Embora muitos colegas de Loeb ofereçam explicações mais convencionais, a discussão sobre a existência de “alienígenas” pode, na verdade, sinalizar um problema global mais profundo, segundo cientistas.

“Onde estão todos?”

O objeto 3I/ATLAS foi detectado em 1º de julho e rapidamente identificado como um cometa originário de outro sistema estelar. Sua cabeleira, uma nuvem de gás e poeira ao redor do núcleo, mede aproximadamente 24 quilômetros de diâmetro. Modelos computacionais estimam sua idade em mais de sete bilhões e meio de anos, tornando-o potencialmente o cometa mais antigo já observado, três bilhões de anos mais velho que o nosso Sol.

Pouco depois, uma versão preliminar de um artigo científico apareceu em um site de pré-publicações, levantando a possibilidade de o objeto interestelar ser, na verdade, uma nave espacial potencialmente hostil. Os coautores, contudo, ressaltam que seu trabalho é “principalmente um exercício pedagógico”.

O astrônomo Abraham (Avi) Loeb, da Universidade de Harvard, conhecido por sua longa dedicação à busca por vida extraterrestre, contribuiu para este estudo. Ele argumenta que, se a hipótese de origem tecnológica do objeto for verdadeira, ela corrobora a intrigante “hipótese da floresta escura”.

Cometa 3I/ATLAS

Cometa 3I/ATLAS.

© Foto: Saguaro Observatory/David Rankin

Em 1950, o físico Enrico Fermi proferiu a célebre pergunta a seus colegas: “Onde estão todos?”. Conforme o conhecimento científico, o universo deveria abrigar outras civilizações avançadas, mas a humanidade não encontra evidências de sua existência — nem naves, nem sinais. A hipótese da floresta escura oferece uma solução para esse paradoxo: civilizações extraterrestres se ocultam deliberadamente, seja por medo de serem aniquiladas, seja com a intenção de atacar sorrateiramente. Nesse contexto, 3I/ATLAS, segundo Loeb, comporta-se como se estivesse planejando uma aproximação secreta à Terra.

Medidas de Proteção Necessárias

Diversas “evidências” são apontadas. Primeiro, o 3I/ATLAS se move a uma velocidade excepcional, superando outros objetos interestelares conhecidos, tornando inviável qualquer sonda alcançá-lo em um futuro próximo. Segundo, sua trajetória se aproxima de Júpiter, Marte e Vênus, órbitas nas quais, especula-se, entidades alienígenas poderiam posicionar satélites de observação.

Finalmente, no final de outubro, o “visitante” de outro sistema se aproximará da Terra pelo lado oposto ao Sol. Essa posição não só dificultará sua observação por telescópios terrestres durante o período de maior brilho, mas também, conforme os pesquisadores, permitiria o envio discreto de instrumentos de observação em direção ao nosso planeta. Além disso, Loeb sugere que o 3I/ATLAS pode usar o Sol para realizar uma manobra de frenagem, posicionando-se nas proximidades da Terra entre o final de novembro e o início de dezembro.

“Se a hipótese se confirmar, as consequências para a humanidade podem ser catastróficas e, possivelmente, exigirão medidas de proteção”, escreveu Loeb em seu blog.

Asteroide Oumuamua em representação artística

Asteroide Oumuamua em representação artística.

© ESO / M. Kornmesser

O 3I/ATLAS não é o primeiro objeto interestelar no qual se tenta identificar uma nave espacial alienígena. Em 2017, foi descoberto o asteroide Oumuamua (“explorador” em havaiano). Ele apresentava uma forma alongada, atípica para corpos celestes de sua categoria, e demonstrava uma aceleração não gravitacional, ou seja, que não poderia ser explicada apenas pela atração de outros corpos celestes.

Loeb publicou artigos e livros defendendo que Oumuamua seria, na verdade, uma vela solar de origem tecnológica. No entanto, sua visão permanece minoritária, com outros pesquisadores argumentando que existem explicações mais simples para as “peculiaridades” desses objetos interestelares.

Discos Duplos Porosos

A era das observações de visitantes de outros sistemas estelares teve início com o lançamento do telescópio infravermelho WISE em 2009, conforme explica Georgy Goncharov, principal pesquisador da Observatório Astronômico de Pulkovo da Academia Russa de Ciências.

“Ele revelou que a maioria dos pequenos objetos espaciais, como cometas e asteroides, são, em primeiro lugar, planos como discos; em segundo, são duplos; e, em terceiro, são muito porosos. A composição exata é frequentemente desconhecida, mas sua densidade é tão baixa que poderiam ser feitos de neve ou rochas com a densidade geral de neve. Ou seja, são dois discos porosos girando um ao redor do outro. Naturalmente, os ufólogos se apegam a isso”, afirma o cientista que trabalhou com os dados do WISE.

Telescópio WISE

Telescópio WISE.

© NASA

Contudo, astrofísicos descobriram que todas as propriedades incomuns desses objetos podem ser explicadas por leis naturais. Por exemplo, a aceleração inesperada resulta do efeito Yarkovsky, onde um impulso reativo é gerado devido ao aquecimento desigual do objeto pelo Sol.

“Se o objeto é um `disco voador` com dois metros de espessura e 500 metros de largura, é natural que ele se comporte como a vela de um barco, e não como uma pequena pedra redonda sob a influência da gravidade”, observa Goncharov.

Atingindo um Limite

Goncharov atribui as tentativas de ver “naves espaciais” em objetos interestelares, primeiramente, a um “entusiasmo romântico” de alguns colegas e, em segundo, ao fato de que especialistas muito focados em sua área podem ter dificuldades em campos correlatos. Mas ele aponta uma terceira e mais grave questão.

“A ciência fundamental em todo o mundo está passando por um período difícil — o financiamento está sendo reduzido em favor da ciência aplicada, e isso ocorre ainda mais rapidamente no Ocidente do que na Rússia. Como resultado, os melhores cientistas não permanecem na área fundamental, e os jovens hesitam em seguir essa carreira”, afirma.

A crise, sugere Goncharov, pode ser explicada pelo fato de que os pesquisadores atingiram um certo limite na compreensão da estrutura do Universo, esbarrando em uma “parede”, e o fluxo de recursos começou a secar. A ciência aplicada, por outro lado, é sempre necessária.

As consequências da atividade de figuras como Avi Loeb são, no mínimo, ambíguas: por um lado, ele atrai a atenção do público para a astronomia; por outro, ele pode desacreditar a ciência com hipóteses excessivamente audaciosas.

No entanto, ele terá a chance de salvar sua reputação se os alienígenas realmente chegarem. Resta apenas esperar por novembro.