A Instância Judicial da ONU Confirma o Caráter Obrigatório dos Acordos Climáticos
O Tribunal Internacional de Justiça da ONU, em 23 de julho, emitiu um parecer consultivo sobre as obrigações dos estados na luta contra as mudanças climáticas. Essencialmente, o tribunal confirmou que os acordos nesta área são legalmente vinculativos, e não apenas de caráter consultivo. Isso eleva as questões climáticas a um nível supranacional. A Rússia, que participou das audiências preliminares com 96 países, opôs-se à imposição de quaisquer decisões climáticas vinculativas, mas o tribunal, de fato, rejeitou essa posição. Especialistas acreditam que esta decisão permitirá responsabilizar os países que não cumprem ou ignoram suas obrigações. No entanto, existe o risco de que, em vez de cooperação, os estados possam iniciar litígios sobre questões climáticas.

Em 23 de julho, o Tribunal Internacional de Justiça da ONU, com sede em Haia, apresentou seu parecer consultivo sobre as obrigações estatais na luta contra as mudanças climáticas. De acordo com a decisão do tribunal, todos os acordos nesta área impõem obrigações rigorosas aos estados-membros da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (CQNUMC). O tribunal esclareceu que “todos os estados-membros têm um interesse jurídico na proteção das obrigações fundamentais de mitigação das mudanças climáticas, conforme estabelecido no acordo climático, e podem responsabilizar outros estados pelo seu não cumprimento”.
Consequentemente, o tribunal de fato confirmou que os acordos climáticos são obrigatórios e não meramente recomendatórios.
Os estados são obrigados a prevenir danos significativos ao meio ambiente, adotar medidas de adaptação aos impactos das mudanças climáticas e cumprir suas obrigações climáticas nacionais. Essas exigências têm caráter universal (erga omnes), ou seja, aplicam-se a todos os países. Em caso de violação das normas, o estado deve cessar a infração e compensar os danos causados.
O Tribunal Internacional de Justiça, como principal órgão judicial da ONU, lida com a resolução de disputas entre estados e a emissão de pareceres consultivos. Ele só pode julgar casos de estados que reconheceram sua jurisdição (atualmente mais de 70, incluindo a Rússia). Embora as decisões do tribunal tenham um caráter consultivo, elas são finais e não estão sujeitas a recurso. Se um estado-membro de um litígio não cumprir a decisão, a outra parte pode recorrer ao Conselho de Segurança da ONU. O processo judicial inclui uma fase escrita, na qual as partes apresentam documentos, e audiências públicas.
A iniciativa para a análise do “caso climático” partiu do estado insular do Pacífico de Vanuatu, que obteve o apoio de mais de 130 países.
Em março de 2023, a Assembleia Geral da ONU aprovou a resolução 77–276, solicitando um parecer consultivo do Tribunal Internacional de Justiça da ONU sobre o assunto. As audiências ocorreram em dezembro de 2024, com a participação de 96 estados e 11 organizações internacionais.
A Rússia também participou das audiências, expressando desacordo com a introdução de quaisquer decisões climáticas vinculativas. O chefe do departamento jurídico do Ministério das Relações Exteriores da Federação Russa, Maxim Musikhin, enfatizou que o parecer consultivo “não deve criar novas obrigações para os estados”. Ele também apontou o impacto negativo das sanções no meio ambiente e a violação dos princípios de cooperação internacional, insistindo que as obrigações dos estados relacionadas às mudanças climáticas já estão definidas em acordos especializados da CQNUMC.
No entanto, o tribunal, de fato, não concordou com essa posição. A adoção deste documento altera significativamente a abordagem legal da agenda climática, elevando seu status global. Mikhail Yulkin, especialista do Centro Internacional de Desenvolvimento Energético Sustentável sob a égide da UNESCO, explicou que, embora não haja um mecanismo direto de execução forçada das decisões do Tribunal Internacional de Justiça da ONU, este documento estabelece consequências legais para os estados que não cumprem as normas climáticas. Em particular, isso permitirá contestar em tribunais a ausência de legislação climática nacional, metas claras nesta área, mecanismos de regulamentação de emissões, e assim por diante. Também possibilitará a apresentação de reclamações contra países que não cumprem suas obrigações, por exemplo, no âmbito de projetos climáticos conjuntos.
Ao mesmo tempo, o especialista adverte que existe o risco de surgirem reivindicações mútuas entre os países. Em vez de empreender ações conjuntas para reduzir o impacto coletivo no clima, os estados podem começar a litigar uns contra os outros. Outro risco, segundo o Sr. Yulkin, é que alguns países, incluindo a Rússia, podem se recusar a cumprir a decisão do Tribunal Internacional de Justiça da ONU, e as consequências desse isolamento podem impedir o fluxo de investimentos e o comércio internacional.
