Nos Estados Unidos, uma tese controversa foi levantada, ligando o popular analgésico paracetamol ao aumento de casos de autismo. Essa posição tem gerado fortes críticas da comunidade médica, que alerta para potenciais e graves consequências para a saúde de gestantes e seus filhos, motivadas por razões políticas.
Política e Paracetamol
O ex-presidente Donald Trump afirmou inesperadamente que sua administração havia descoberto uma ligação entre o uso de paracetamol por gestantes e o desenvolvimento do autismo. Essa declaração, feita em um evento dedicado ao ativista Charlie Kirk, provocou indignação na comunidade científica e médica internacional, incluindo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Conforme observado pelo médico Alexei Vodovozov, essa postura não foi uma surpresa, considerando que Robert Kennedy Jr., uma figura conhecida do movimento antivacina e um ativo combatente do autismo, foi nomeado chefe do Ministério da Saúde americano. Kennedy Jr. anteriormente associou o autismo a vacinas e mercúrio em medicamentos, embora dados científicos não tenham corroborado essas alegações. Apesar da exclusão do timerosal (um conservante à base de mercúrio) das vacinas infantis no início dos anos 2000, ele continuou a insistir nessa conexão.
A comunidade médica dos EUA tem conseguido defender a segurança das vacinas até agora, embora já se observem tendências de transição para monovacinas em vez de combinadas. Sem conseguir “vencer o autismo” através de ataques às vacinas, Kennedy Jr. mudou o foco para o paracetamol. O gatilho foi um trabalho científico de agosto de 2024, que mostrou uma correlação entre o uso de paracetamol por gestantes e o risco de desenvolver Transtornos do Espectro Autista (TEA) e Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). No entanto, especialistas acreditam que as conclusões das autoridades estavam incorretas, pois o estudo foi uma revisão e ignorou o efeito protetor do paracetamol, observado em alguns dos trabalhos analisados.
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Mecanismo de Ação Desconhecido
O Dr. Vodovozov enfatiza que a revisão não afirma a nocividade do paracetamol, mas apenas levanta hipóteses cautelosas sobre sua possível influência em alterações epigenéticas. “Ainda não conhecemos seu mecanismo molecular. Não temos ideia de como ele funciona em um nível tão fino e, portanto, não podemos fazer tais afirmações”, explica ele.
Ele também observa que a natureza observacional dos estudos na revisão dificulta o estabelecimento de relações de causa e efeito. Por exemplo, gestantes tomam paracetamol devido a infecções virais, como a gripe, que por si só podem afetar negativamente o desenvolvimento fetal. Assim, a causa do autismo pode ser a própria doença, e não o medicamento, o que, no entanto, é politicamente inconveniente de admitir.
Atualmente, a bula do paracetamol nos EUA apenas adiciona uma recomendação para uma abordagem mais cautelosa no uso por gestantes. Vodovozov alerta que a recusa do paracetamol em caso de febre alta pode prejudicar seriamente a criança, o que seria uma grave consequência de decisões políticas questionáveis. Muitos outros estudos confirmam a segurança do paracetamol, e a Associação Americana de Obstetras e Ginecologistas recomenda continuar seu uso.
Prevenção: Possibilidades Limitadas
O aumento no número de casos diagnosticados de TEA é explicado pela expansão dos critérios diagnósticos. A ciência ainda não tem uma compreensão completa das causas do autismo.
Ivan Martynikhin, médico psiquiatra, aponta que uma parte significativa dos casos de TEA tem raízes genéticas. Entre os fatores de risco, ele menciona a idade dos pais, o curto intervalo entre as gestações, diabetes materno, parto prematuro, hipóxia grave no parto e o uso de ácido valproico. Em contrapartida, a suplementação de ácido fólico reduz o risco.
A prevenção do TEA é possível apenas em casos raros, quando uma variante genética específica é conhecida. Isso pode ser implementado através do rastreamento genético de embriões na Fertilização In Vitro (FIV). No entanto, esses casos são poucos. Recomenda-se a consulta a um geneticista ao planejar a gravidez se houver histórico familiar de autismo.
Autismo: Não uma Doença, mas uma Característica
Os médicos consideram o autismo uma característica do neurodesenvolvimento, e não uma doença. Entre as personalidades conhecidas com Síndrome de Asperger (uma forma de TEA) estão Elon Musk e Bill Gates. No entanto, o TEA não garante genialidade, e suas manifestações variam de características leves a dificuldades significativas.
Ekaterina Surkova, doutora em ciências biológicas, observa que não existem medicamentos para tratar o “núcleo” do autismo (características sociais e comunicativas). Os medicamentos são usados para controlar sintomas concomitantes, como agressão ou ansiedade.
A comunidade de adultos autistas e ativistas frequentemente enfatiza que o autismo não é apenas um “déficit”, mas uma parte da identidade de muitas pessoas. Portanto, o foco deve ser no apoio, acessibilidade, respeito e adaptação da sociedade, e não em tentativas de “normalizar” a pessoa a qualquer custo. Isso deve ser um princípio chave no desenvolvimento de programas médicos e políticos.
