Segurança Alimentar Global: Fome, Autossuficiência e Desperdício de Alimentos

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Panorama da Distribuição Mundial de Alimentos: Escassez, Suficiência e Excedente

Em 16 de outubro, celebra-se o Dia Mundial da Alimentação, data que marca a fundação da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), que este ano comemora seu 80º aniversário. O objetivo da celebração é reforçar a importância de garantir que todas as pessoas no planeta tenham acesso a alimentos saudáveis e acessíveis. Este artigo explora a distribuição de alimentos globalmente: onde há escassez, onde a oferta é adequada e onde ocorre desperdício.

Onde Faltam Alimentos

Poder-se-ia pensar que, com o avanço da agricultura e do comércio global, a questão da escassez de alimentos seria algo do passado. No entanto, ainda existem países e regiões onde este problema permanece atual. Estima-se que, em 2024, cerca de 673 milhões de pessoas, ou 8,2% da população mundial, enfrentaram a fome. Deste total, 307 milhões estavam na África, 323 milhões na Ásia e 34 milhões na América Latina e Caribe. Embora a percentagem de pessoas famintas esteja a diminuir progressivamente na maioria das regiões, o problema ainda não foi totalmente erradicado.

Mapa mostrando regiões com fome

Na Ásia e na África, são destacados os sub-regiões onde a proporção da população em risco de fome é superior à média mundial.

A elevada inflação alimentar dos últimos anos contribui para que 2,6 bilhões de pessoas (mais de um quarto da população mundial) não consigam ter acesso a uma alimentação saudável e completa, diversificada e rica em micronutrientes essenciais ao corpo humano. Este problema afeta, em grande parte, os países de baixo rendimento, principalmente os africanos.

Na maioria dos países desenvolvidos, especialmente na Europa, a segurança alimentar não é uma preocupação majoritária. As ondas de preocupação que surgem são geralmente causadas por problemas globais — desde a escalada de tensões políticas até desastres naturais — capazes de interromper as cadeias de suprimentos estabelecidas.

Quem Pode Se Alimentar Por Conta Própria

Um grupo de cientistas europeus realizou um estudo global para avaliar a capacidade de diferentes países se autossustentarem, em caso de necessidade, com os alimentos essenciais para uma dieta saudável, abrangendo as seguintes categorias: frutas, vegetais, leguminosas, carne, peixe, produtos ricos em amido e laticínios.

Gráfico de autossuficiência alimentar por país

A infografia foi elaborada com base em dados do estudo de Stehl, J., Vonderschmidt, A., Vollmer, S. et al. `Gap between national food production and food-based dietary guidance highlights lack of national self-sufficiency.` (Natural Food, junho de 2025).

O estudo revelou que, das 186 nações analisadas, 154 conseguem cobrir as suas necessidades em duas a cinco categorias de produtos. A Guiana, um pequeno país sul-americano, destacou-se como líder em autossuficiência, sendo capaz de fornecer uma alimentação completa à sua população. Vietnã e China também figuram entre os três primeiros. Por outro lado, Afeganistão, Emirados Árabes Unidos, Iraque, Catar e Iêmen não conseguem satisfazer 100% das necessidades em nenhuma das categorias de produtos essenciais. Constatou-se que muitos países europeus não produzem vegetais e frutas em quantidade suficiente, enquanto as nações asiáticas enfrentam principalmente a escassez de produtos lácteos. Em quase todas as regiões, com exceção dos países da Ásia-Pacífico, a pesca é insuficiente. A Rússia, neste contexto, representa uma exceção positiva.

Os autores do estudo apontam que o comércio entre nações com excedente e aquelas com escassez de alimentos ajuda a mitigar os problemas. Contudo, a dependência excessiva de um ou mais países fornecedores pode ser potencialmente perigosa. Em muitas nações, a situação de autossuficiência alimentar poderia ser melhorada — produzir mais não é impossível, mas a compra em outros países é frequentemente mais simples e econômica.

Quanto Alimento é Desperdiçado

O excedente de alimentos também é um problema. Segundo estimativas da ONU, cerca de 13% de todos os produtos alimentícios produzidos globalmente estragam antes de chegar ao consumidor. A maior parte (um quarto do total) dessas perdas corresponde a vegetais e frutas perecíveis.

Outros 19% são perdidos no varejo, na restauração e nas residências. De acordo com as estimativas mais recentes, em 2022, 1,05 bilhão de toneladas de alimentos foram descartadas em aterros sanitários globalmente — cerca de 132 kg por pessoa. A maior parte, 79 kg por pessoa, foi desperdiçada em armários e frigoríficos domésticos. Países pobres e ricos produzem, em média, níveis semelhantes de resíduos alimentares. No entanto, os países pobres perdem mais produtos na fase de entrega devido a uma logística deficiente e infraestrutura de armazenamento subdesenvolvida. Nos países ricos, os alimentos simplesmente estragam e são descartados antes de serem consumidos — um claro sinal de superconsumo.

Gráfico de desperdício de alimentos por região

Em termos absolutos, os líderes em desperdício de alimentos são, previsivelmente, os dois países com populações bilionárias: China (108,7 milhões de toneladas) e Índia (78,2 milhões de toneladas). Grandes quantidades de produtos alimentares também são descartadas em outros países populosos como Paquistão, Nigéria, EUA e Brasil.

Na análise per capita, a situação muda. Maldivas e Seicheles, pequenas nações insulares, lideram o ranking, com cerca de 200 kg de desperdício alimentar por pessoa anualmente. Entre os países maiores, Síria, Tunísia e Egito figuram no topo. O Egito, em particular, está entre os líderes tanto em volume total quanto em desperdício per capita — 18 milhões de toneladas no total, 163 kg por pessoa. Para comparação: nas Filipinas, um país de população similar, o desperdício é de apenas 26 kg por pessoa anualmente. Na Rússia, o volume de resíduos alimentares per capita é relativamente baixo, cerca de 33 kg por ano.