Desde sua estreia em 2019, Euphoria tem gerado grande impacto. A série, que explora o complexo universo dos adolescentes da Geração Z, nunca hesitou em abordar temas como drogas, sexo, violência doméstica, vício, identidade de gênero e sexual, escândalos e rivalidade feminina. Nada parecia escapar do olhar atento de Sam Levinson ao desenvolver seus personagens.
Contudo, após uma temporada irregular em 2022, a produção pareceu enfrentar o desgaste natural de sua capacidade de chocar e escandalizar. Isso ocorreu mesmo com a fórmula do sucesso aparentemente intacta, reforçada por um elenco em ascensão e uma abordagem ainda mais ousada no polêmico. Ainda assim, a entrega deixou um gosto amargo e, por quase dois anos, pairou a incerteza sobre a continuidade da série. Até que a HBO finalmente anunciou que Euphoria seguiria com um novo enfoque narrativo e uma reinterpretação de seu estilo peculiar.
No entanto, nada disso poderia prever a recepção da terceira temporada. Tornou-se uma das mais complexas e divisivas na história recente da televisão, devido a diversos fatores. O atraso de anos nas filmagens, provocado pelas greves de Hollywood, impactou decisivamente o cronograma. Paralelamente, as agendas lotadas de estrelas como Zendaya, Sydney Sweeney e Jacob Elordi geraram um ceticismo crescente sobre sua continuação. A isso somam-se a morte de Angus Cloud (Fezco) e a saída de Barbie Ferreira (Kat), que deixaram lacunas narrativas e emocionais difíceis de preencher para muitos fãs. Um cenário incerto que levantou dúvidas consideráveis sobre a capacidade de Euphoria retomar sua qualidade e relevância em um eventual retorno.
Nada é igual em ‘Euphoria’ e isso torna tudo mais complicado
A reação imediata da crítica foi apontar que Euphoria não só perdeu parte de sua originalidade visual, mas também se tornou uma trama desorganizada e absurda. Pela primeira vez desde sua estreia, a série recebeu uma nota de apenas 43% de críticas positivas no Rotten Tomatoes. Para piorar, houve críticas à incapacidade do roteiro de Sam Levinson em lidar com a maturidade de seus personagens, bem como com o mundo que eles enfrentam ao atingir os vinte anos em meio a um fracasso total de suas aspirações. Um ponto com o qual nossa crítica concorda.
Apesar de suas potenciais falhas, a temporada estreou quebrando recordes de audiência. Isso sugere que, apesar das críticas especializadas, a produção ainda é capaz de despertar interesse. Para analisar esse ponto e entender o fenômeno, apresentamos cinco aspectos em que Euphoria acertou (e cinco em que errou) nesta nova temporada. Do enfoque cronológico à perda de sua capacidade de surpreender, oferecemos uma análise completa, ideal para os fãs.
Os acertos de ‘Euphoria’ em sua terceira temporada
Uma mudança temporal necessária
Após quatro anos de hiato, o roteirista Sam Levinson introduziu mudanças estruturais que revitalizaram o argumento. Um dos pontos mais interessantes é o salto temporal de cinco anos, que transporta os personagens da vida escolar para uma vida adulta muito mais crua e cruel.
Essa mudança permite que figuras como Rue (Zendaya), Cassie (Sweeney) e Nate (Jacob Elordi) enfrentem as consequências reais de suas decisões passadas, sem a rede de segurança da adolescência. Isso confere à série uma maturidade e um peso emocional renovados, que foram bem recebidos por aqueles que buscavam uma evolução lógica na trama.
Rue brilha em seu próprio arco
Outro elemento que surpreendeu na nova temporada de Euphoria é a evolução de Rue Bennett. A personagem interpretada por Zendaya atinge níveis de complexidade e escuridão sem precedentes. De dependente química, ela se torna uma mula para redes de tráfico de drogas, elevando o risco da série a um thriller psicológico e de sobrevivência.
Sua luta não é mais apenas contra o vício pessoal, mas contra um sistema criminoso que a deixa endividada com figuras como Laurie (Martha Kelly). Isso permite que a atuação de Zendaya explore facetas de desespero e astúcia que a tornam, novamente, o coração da história.
Uma estética de alto calibre
Se algo sempre se destacou em Euphoria é seu visual, e a terceira temporada não decepciona. Sam Levinson filmou em película Kodak de 65 milímetros, o que confere à produção um visual deslumbrante. Essa decisão técnica não é um capricho artístico, mas sim um meio de dotar a temporada de uma textura granulada e cinematográfica que acentua o tom sombrio desta fase adulta.
A série mantém sua identidade visual icônica, mas abandona o brilho juvenil em favor de imagens mais impactantes e viscerais. Isso reforça a sensação de que os personagens deixaram sua juventude para trás e agora enfrentam um mundo muito mais hostil e perigoso.
Novos temas para abordar
Talvez para se distanciar das temporadas anteriores, a terceira temporada trouxe à tona temas como fé, redenção e o mal. Ao se afastar dos dramas típicos do ensino médio, a narrativa foca na busca por significado e na possibilidade de curar traumas profundos, em um contexto de ansiedade digital e perda de futuro.
Esses eixos temáticos permitem que o restante do elenco, para além dos protagonistas como Jules (Hunter Schafer) e Nate, tenha arcos de redenção (ou queda) mais filosóficos, enquanto tentam responder se é possível escapar das versões mais sombrias de si mesmos que forjaram durante seus anos em East Highland.
Um episódio por semana
Evitando a tendência do binge-watching, o formato de entrega semanal de oito episódios na HBO Max recupera o sentido de evento televisivo dominical. Essa estratégia de lançamento permite que o público processe a densidade emocional de cada capítulo e fomenta a discussão comunitária sobre os desdobramentos, episódio a episódio.
Diferente de experiências como a de Stranger Things (com seu lançamento em dois blocos), o episódio semanal mantém a relevância da produção para além de sua estreia. Uma decisão que reafirma a qualidade da série da HBO como um fenômeno.
E cinco erros de ‘Euphoria’ em sua nova temporada
Desconexão narrativa
Um dos pontos criticados da nova temporada de Euphoria é a desconexão narrativa em relação à temporada anterior, o que inclui o descarte deliberado de vários dos arcos que ficaram em aberto em 2022.
Em vez de explorar a dívida de Rue com Laurie ou o mistério do terceiro irmão Jacobs, a série esquece ambas as situações. Pior ainda, o roteiro utiliza o salto temporal de cinco anos como um apagão e recomeço. Isso fez com que os primeiros capítulos da temporada parecessem um percurso desorganizado sobre uma história que pouco ou nada tem a ver com as anteriores.
As grandes ausências
A ausência de figuras-chave como Fezco e Kat também deixou um vazio emocional e narrativo na série. Além disso, a morte de Angus Cloud e a saída de Barbie Ferreira obrigaram a reescrever tramas importantes. Pior ainda, a decisão de eliminar suas presenças sem lhes dar um encerramento digno foi qualificada por alguns veículos como uma falta de respeito ao legado dos personagens.
O resultado é uma temporada que, apesar de seu grande orçamento e ambição, parece ter perdido parte da alma coletiva que fez da série um fenômeno cultural global, deixando os fãs com uma sensação de nostalgia por uma essência que parece ter se perdido definitivamente no processo de produção.
Sensacionalismo extremo
Outro aspecto controverso é o sensacionalismo extremo em tramas como a de Cassie Howard, interpretada por Sydney Sweeney. A decisão de Sam Levinson de transformar Cassie em uma criadora de conteúdo no OnlyFans foi recebida com acusações de misoginia e de submeter a personagem a um tormento de humilhação sexual que carece de uma crítica social real.
Críticos de veículos como Mashable apontaram que essas cenas parecem projetadas unicamente para gerar impacto visual e controvérsia nas redes sociais, em vez de explorar as pressões sistêmicas que levam uma jovem a tomar tais decisões. Essa obsessão pelo “shock value” desvia o foco do que um dia foi um estudo complexo de personagem, reduzindo Cassie a uma caricatura de suas próprias inseguranças.
A controvérsia musical em ‘Euphoria’
A ausência de Labrinth na trilha sonora teve um impacto notavelmente negativo na atmosfera característica da série. Como se lembra, a saída definitiva de Labrinth antes da terceira temporada foi precedida por uma série de declarações explosivas, em especial, várias em que o músico expressou seu profundo descontentamento com a produção.
O artista britânico, cuja música foi o pilar emocional das primeiras entregas, afirmou ter se sentido maltratado e chegou a atacar diretamente o projeto e a indústria musical, deixando claro que não planeja retornar devido à toxicidade vivenciada no ambiente de trabalho da série.
Ritmo irregular e roteiro falho para ‘Euphoria’
O ritmo irregular e a fragmentação das histórias prejudicam a solidez geral da produção, ao separar os personagens em mundos distintos: Rue no México e Texas, Cassie e Nate na vida suburbana, e Lexi em Hollywood. Assim, a série perdeu a coesão do grupo que permitia contrastar suas realidades.
Essa estrutura de histórias cruzadas frequentemente se assemelha a uma coleção de curtas-metragens desconexos, que ainda lutam para captar a atenção do espectador simultaneamente, diluindo o impacto emocional do conjunto. Veículos como Variety descreveram a temporada como um fan-fiction divertido, mas desarticulado, onde a ambição visual supera constantemente a solidez do roteiro.
