O que é ‘Undertone’? O incomum thriller de terror da A24 que está a gerar conversas

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O filme Undertone, de Ian Taron, uma produção da A24, parte de uma premissa aparentemente familiar, mas a distorce de forma sinistra e original. A obra não se limita a mostrar o que acontece quando a tecnologia deteta o sobrenatural, mas também o que ocorre quando o amplifica, tornando-o íntimo, quase invasivo. Contudo, a película evita ficar presa a esse conceito, abrindo diversas linhas de reflexão que se cruzam e se contaminam. O resultado não é uma tese fechada, mas uma sensação persistente de inquietação que se agrava progressivamente.

Isso é alcançado pela decisão de aprofundar o que realmente pode produzir medo numa era tecnológica e cínica. Por um lado, Undertone examina o temor primitivo que surge quando não compreendemos o que nos rodeia. Esse medo básico, quase automático, que não necessita de explicação para ser real. Por outro lado, o guião tenta ir mais longe e questiona que forma o horror assume quando deixamos de o pensar como algo externo. Nesse cruzamento, o filme sugere algo desconfortável: o inexplicável não vem de fora, já está lá, a pulsar em segundo plano. Só precisa do contexto adequado para ser notado.

Assim, a trama toma decisões muito específicas para sustentar essa ideia. A ação desenrola-se quase inteiramente dentro de uma habitação, o que obriga a encenação a construir tensão com recursos limitados. Não há fuga física, transformando o confinamento em algo psicológico. Cada divisão parece conter algo que não se revela por completo. Cada corredor guarda uma pausa incómoda. A sensação de asfixia não depende do que vemos, mas do que intuímos e, mais complicado ainda, do que se esconde para além.

Uma mulher à beira do abismo em ‘Undertone’

Para isso, o argumento foca-se em Evy (Nina Kiri), uma criadora de conteúdo que atravessa um momento emocional complicado. O seu trabalho consiste em ouvir, analisar e interpretar casos reais sobre o sobrenatural. Ou seja, ela já vive num estado de atenção constante. Essa predisposição torna-a o veículo perfeito para o que está prestes a acontecer. Assim, o que começa como curiosidade profissional rapidamente se transforma em algo muito mais pessoal.

A situação pessoal e emocional de Evy adiciona outra camada de tensão à história. A sua vida é marcada pelo cuidado da mãe em estado terminal, uma realidade que introduz o tema da morte sem necessidade de ênfases. Undertone não insiste nisso, mas deixa-o a flutuar como um eco constante. Essa proximidade com o fim da vida parece abrir uma fenda emocional por onde tudo o mais se infiltra. Afinal, Evy passa boa parte do tempo a analisar o que acontece após um falecimento. Portanto, há muito de uma ideia predestinada sobre o mal e o medo na sua história.

Mas é quando começam a chegar-lhe gravações estranhas de um terceiro que o relato muda de ritmo. Não se trata apenas de arquivos inquietantes, mas de peças que parecem conter algo oculto, que além disso exige ser decifrado. As vozes que nela aparecem, Mike (Jeff Yung) e Abby (Sarah Beaudin), nunca se mostram fisicamente, mas conseguem construir uma presença clara, quase tangível. E aqui reside um dos acertos: o filme compreende que sugerir pode ser mais perturbador do que mostrar.

Som, silêncio e paranoia progressiva

O trabalho acústico, liderado pela veterana Shanika Lewis-Waddell, torna-se o verdadeiro motor da experiência. Assim, o som dentro de Undertone é a própria estrutura do relato. Cada ruído, por pequeno que pareça, adquire um peso específico dentro da narrativa e torna-se cada vez mais aterrorizante. Algo que provoca que, desde um relógio que marca o tempo, o rangido que aparece sem contexto, até um leve golpe que poderia ser qualquer coisa, se transforme em horror. De facto, o filme assume o risco de ser muito mais elaborado a nível imersivo do que visual. Uma decisão artística que funciona em grande parte das suas cenas.

Durante boa parte da metragem, o argumento aposta em desenvolver a história tanto através do visível quanto do audível. Por vezes, até mais pelo segundo. Há momentos em que o que se ouve contradiz o que se vê, gerando uma fricção que incomoda. Essa tensão constante obriga o espectador a manter-se alerta. Aqui não há descanso fácil, porque nem o silêncio funciona como refúgio. Quando Evy utiliza os seus auriculares, a experiência muda de escala. O mundo exterior desaparece e o que resta é uma bolha sonora onde qualquer detalhe se torna significativo. É como se o som encontrasse a forma de se aproximar mais, de se infiltrar diretamente na mente.

Para o seu raríssimo final, Undertone não oferece explicações simples. Prefere sustentar a dúvida sobre a possibilidade de um fenómeno paranormal e deixar que cresça. E nesse processo, constrói uma experiência que não depende de sobressaltos evidentes, mas de uma inquietação mais subtil e persistente. Uma que permanece a pairar mesmo depois do fim do filme.