Até 19 de abril, a Royal Academy of Arts de Londres acolhe a mais ambiciosa retrospectiva dedicada até agora a Rose Wylie, a reconhecida artista britânica e membro desta prestigiada instituição.
Conhecida pelo seu estilo figurativo audacioso, Wylie extrai inspiração de um vasto espectro de fontes: desde a história da arte e civilizações ancestrais até à literatura, cinema, cultura de celebridades, eventos atuais e o seu ambiente pessoal. A exposição reúne mais de noventa peças, cobrindo desde os seus trabalhos mais célebres até pinturas e desenhos recentes e inéditos.
Como cronista da vida contemporânea, as suas obras relatam as diferentes épocas que testemunhou na sua longa trajetória, capturando desde as suas experiências de infância durante os bombardeamentos da Segunda Guerra Mundial até momentos mais triviais, como uma tarde de verão partilhada com amigos.
A antologia está estruturada por temas, começando com memórias da sua infância, vida familiar e os ataques a Londres durante a Segunda Guerra Mundial, refletidas em obras como Rosemount e Wing Tips and Blue Doodlebugs. Durante a década de 1950, enquanto estudava na Escola de Arte de Folkestone e Dover, em Kent, Wylie concentrou-se no desenho anatómico e na pintura figurativa. Após uma pausa para se dedicar à sua família, retomou a sua produção criativa nos anos oitenta, montando um estúdio na sua casa em Kent, local onde continua a criar.
A exposição apresenta Room Project 2002-3, a primeira série importante de Wylie que obteve um notável reconhecimento da crítica. Estas criações evidenciam a decidida aspiração da artista por elaborar telas de grande escala que imerjam o espectador num universo lúdico e envolvente, habitado por figuras como gatos, bonecas de papel, nadadores olímpicos e a própria Wylie vestindo a sua saia axadrezada preferida. Adicionalmente, são exibidas diversas composições em papel, incluindo Dentes inferiores, Autorretrato, de 2016.
O desenho é um pilar fundamental na prática de Wylie, tal como ilustrado na obra Mão: O desenho como elemento central, de 2002, proveniente de Gante. Ela desenha diariamente, construindo um extenso repertório de referências visuais. Com o passar do tempo, por vezes anos depois, um motivo particular, destilado à sua essência, emerge numa tela, frequentemente ao lado de elementos gráficos ou palavras escritas de forma inesperada.
A retrospectiva também reúne várias pinturas da série Notas de cinema, que evidenciam a profunda fascinação de Wylie pela sétima arte. A artista explora como a câmara manipula a visão, desde o zoom para um close-up até à captura de múltiplas perspectivas e ângulos dentro de uma única cena. Imagens dramáticas, juntamente com detalhes quotidianos, fixam-se na sua mente e materializam-se em obras como Kill Bill (Notas do filme) ou Natural Born Killers, Long-shot (Notas do filme). Jornais e internet constituem outra rica fonte de inspiração, especialmente fotografias de objetos ou figuras públicas, seja um artefacto babilónico ou uma celebridade no tapete vermelho. Para ela, o relevante é o impacto visual destas imagens reproduzidas, para além da identidade ou da narrativa que subjazem.
Outras peças exploram a forma como a informação é consumida no século XXI através da imagem mediática. Além disso, a inspiração de Wylie surge do seu ambiente mais próximo: o seu lar, repleto de objetos com significado pessoal; o seu jardim com o seu gato, Pete; e a comunidade vizinha que a rodeia. A quotidianidade transforma-se assim num diário visual.
A retrospectiva culmina com um conjunto de quatro grandes telas monocromáticas que representam animais, executadas em tonalidades de gengibre, preto, azul e vermelho. Wylie criou-as pintando diretamente sobre a tela com as suas mãos, permitindo que a manipulação direta do pigmento forjasse a imagem com uma intensidade visceral e tátil, que transmite a energia e o prazer do seu processo criativo. Embora o tema seja identificável, é esta abordagem de transcender a representação convencional que realmente confere sentido à sua obra para a artista.
