A exposição ‘Um quadro pode ser meu amigo?’ do Museu da Universidade de Navarra (MUN) destaca-se por ter sido concebida e curada pela sua própria equipe educativa, uma prática incomum em museus. Após uma década de trajetória em programação formativa, o MUN, sob a direção de Fernando Echarri e Teresa Barrio, transformou a exposição no cerne do seu trabalho pedagógico, envolvendo diversos departamentos. O título da mostra, inspirado na pergunta de uma jovem visitante, realça a capacidade intrínseca da arte de gerar questionamentos, fomentar o debate e abrir caminhos inesperados para o conhecimento, num ambiente mais livre e acolhedor.
Esta iniciativa do MUN reafirma a missão dos museus de alcançar públicos diversos, desde estudantes a idosos e pessoas vulneráveis, através de estratégias educativas variadas. O programa do MUN foca-se na educação interdisciplinar, no desenvolvimento da ‘aprendizagem a pensar’, no estímulo da criatividade e do pensamento alternativo. Utiliza metodologias inovadoras como visual thinking, object-based learning, learning by doing, trabalho colaborativo e rotinas de pensamento (‘vejo-penso-pergunto-me’), além de promover a educação emocional, afetiva e em valores.
A exposição estrutura-se em núcleos temáticos que combinam obras da coleção do museu com murais colaborativos, criados por participantes dos seus programas educativos. Além disso, os visitantes são convidados a interagir com materiais disponíveis para se juntarem a estas atividades.
O primeiro segmento da mostra explora a ‘educação do olhar’ através de citações de figuras como Tàpies, Rothko e Picasso. Estas reflexões abordam desde a importância da constância (‘a criatividade deve encontrar-te a trabalhar’) até à capacidade de observar com o frescor de uma criança ou a perspicácia de um artista. A exposição enfatiza que alcançar uma ‘visão de qualidade’ exige atenção e esforço, oferecendo em troca a rica recompensa de perceber o oculto.
Em seguida, a exposição apresenta módulos centrados em artistas, conceitos ou obras que têm sido objeto do trabalho educativo do MUN. Destaca-se a ‘Rothko experience’, um projeto de 2019 com mais de 1.500 estudantes. Ao observar uma obra de Rothko de 1969, os alunos aprenderam que a aparente simplicidade dos seus campos de cor requer uma atenção profunda, capaz de evocar intensas emoções e efeitos psicológicos. Esta experiência, incomum por dedicar um tempo prolongado a uma única peça, permitiu-lhes superar preconceitos sobre a arte contemporânea, ampliando a sua perspetiva e reconhecendo a subjetividade das suas apreciações.
Outro projeto notável de 2017 tomou como referência o Guernica de Picasso e a Estela para um povo pacífico que era Guernica de Oteiza. Os estudantes expressaram individualmente as suas visões de paz, uma iniciativa tão bem-sucedida que foi publicada no Journal of Museum Education e estabeleceu as bases para futuras atividades focadas na convivência.
Um terceiro módulo estabelece uma conexão inesperada entre Wassily Kandinsky e a Plaza del Castillo em Pamplona. Foi revelado que Kandinsky, durante uma viagem pela Espanha, adquiriu um postal daquela praça, o que serviu para introduzir os estudantes à abstração, conectando o local ao global e explorando o seu potencial para a reflexão crítica e o autoconhecimento. Os trabalhos dos alunos foram expostos no Nuevo Casino.
Um quarto módulo é dedicado aos idosos e ao bem-estar que os museus podem proporcionar. Sob o lema ‘QUIDARTE’, foram desenvolvidos concertos, dança, teatro, oficinas e conferências, fomentando a relação entre artes plásticas, cênicas e saúde. Os próprios idosos participaram ativamente durante a pandemia, tanto virtualmente quanto presencialmente, e foram posteriormente homenageados por estudantes.
Os segmentos finais abordam ‘As mulheres nas artes’, examinando papéis e estereótipos com obras de Jane Clifford, Lynne Cohen e Cecilia Paredes; ‘A pirâmide multicultural’, um convite a observar a diversidade social através da fotografia de Pierre Gonnord; e ‘Um museu universitário’, que explora a profunda conexão do MUN com o âmbito educativo.
Em síntese, a exposição oferece um leque de possibilidades que os museus têm para promover a observação, o conhecimento e a criatividade. Estas são habilidades essenciais, não apenas para a arte, mas para a vida em si, e por isso são relevantes para todos.
