Bloqueios da LaLiga atingem limites impensáveis: “Não consigo localizar meu pai por causa do futebol”

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Imagem de Javier Tebas, presidente da LaLiga.

A incapacidade de acessar o cardápio do seu restaurante favorito, visitar páginas web simples, usar aplicativos de agendamento médico ou controlar luzes em uma casa inteligente. Essas são algumas das consequências enfrentadas pelos usuários na Espanha quando partidas da LaLiga são disputadas e Javier Tebas ativa seu sistema de bloqueio de endereços IP. Embora essas situações possam parecer menores, um caso recente durante o último fim de semana de futebol destacou a problemática, expondo o controle excessivo sobre a internet e uma política que parece não ter fim.

O que aconteceu? No último sábado, um usuário compartilhou nas redes sociais uma experiência alarmante. O GPS que utilizava para localizar seu pai, que sofre de demência senil, parou de funcionar por volta das 20h, impedindo sua localização durante o passeio vespertino. O aplicativo do serviço simplesmente não respondia. Após contatar os responsáveis da empresa, ele recebeu uma resposta surpreendente:

“Detectamos que alguns usuários na Espanha podem ter problemas para abrir o aplicativo PAJ Portal V2 nos fins de semana, especialmente durante os jogos da LaLiga”, comunicou o serviço técnico do aplicativo GPS, enquanto o usuário estava na angustiante busca por seu pai.

A razão? É provável que o aplicativo GPS dependa de recursos hospedados em plataformas como Github ou Cloudflare, as quais a LaLiga bloqueia recorrentemente durante a transmissão de jogos importantes, buscando assim prevenir a pirataria online. Uma medida que, metaforicamente, tenta matar moscas com tiros de canhão.

A situação se repete, mas desta vez não afeta apenas a consulta de cardápios ou a leitura de artigos. Trata-se da impossibilidade de localizar uma pessoa vulnerável através de um serviço que não tem qualquer relação com a pirataria da LaLiga.

A lógica de Javier Tebas? Se algo usa Cloudflare (um serviço que também abriga alguns IPs piratas), é bloqueado, mesmo que não tenha qualquer relação com o futebol ou sua transmissão ilegal. Um exemplo ilustrativo é um aplicativo de livros infantis que teve que ser reconfigurado para que seus usuários pudessem ler enquanto se joga futebol na Espanha.

Javier Tebas, presidente da LaLiga.
Foto: Ben McShane/Web Summit, via Flickr, sob licença Creative Commons (CC BY 2.0 DEED)

A LaLiga está excedendo os limites judiciais estabelecidos

É claro que a LaLiga não age por iniciativa própria. Sua atuação é baseada em uma sentença judicial que lhe concede o poder de bloquear praticamente qualquer IP minimamente ligada à pirataria. Se o Github contém recursos que poderiam ser usados para transmissões ilegais, então TODO o Github é bloqueado, impedindo o acesso a qualquer conteúdo hospedado em seus servidores.

No entanto, embora muitos considerem essa sentença desproporcional e totalitária, o juiz impôs limites claros à LaLiga de Javier Tebas. Um deles era não afetar serviços de terceiros nem causar danos, uma situação que ocorre desde os primeiros fins de semana de bloqueios, embora inicialmente com serviços não essenciais e interrupções breves.

Contudo, esses bloqueios estão gerando cada vez mais “vítimas” que vão além de não conseguir ler notícias ou reservar mesas. Milhares de serviços essenciais hospedados no Cloudflare estão falhando sistematicamente, e têm pouca ou nenhuma relação com a pirataria.

Um GPS para localizar pessoas, redes inteiras de agendamentos médicos inacessíveis durante os jogos de futebol, e centenas de negócios e lares que não conseguem usar seus sistemas de automação residencial, pagamentos com cartão Redsys ou outras funcionalidades. Inclusive, usuários que pagam legalmente para assistir futebol enfrentam problemas com outros serviços essenciais.

Para piorar, aqueles que transmitem e consomem futebol ilegalmente zombam diariamente de Javier Tebas e da LaLiga. Uma simples VPN e alguns cliques são suficientes para continuar pirateando o sinal sem maiores inconvenientes.

Isso significa que uma parte significativa da internet e serviços cruciais estão sendo bloqueados, enquanto aqueles que desejam burlar as regras podem fazê-lo de maneira extremamente simples.