Yuko Mohri: Improvisar e Retroalimentar-se

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A renomada artista japonesa Yuko Mohri, conhecida por sua abordagem inovadora, apresenta “Entrelaçamentos” no Centro Botín de Santander. Esta é sua maior exposição na Europa e a primeira na Espanha, sucedendo sua participação na Bienal de Veneza, onde representou o Japão com uma montagem que transformou a percepção do pavilhão através da luz, som, aroma e movimento.

Mohri, nascida em 1980 em Kanagawa e residente em Tóquio, cria suas obras a partir de elementos naturais e objetos do cotidiano. Suas instalações são concebidas como sistemas interconectados e efêmeros que engajam o espectador, modificando suas sensações no espaço expositivo. Além de apelar à percepção física, suas peças conectam-se a questões sociais e ambientais contemporâneas, incentivando a reflexão sobre as relações de dependência nos ecossistemas e a possibilidade de reparar o que está danificado e reutilizar o que parece obsoleto.

Inspirada por artistas como Duchamp e Calder, Mohri projeta esculturas cinéticas adaptadas especificamente para cada local. Estas composições utilizam objetos encontrados e instrumentos musicais reelaborados, conectados a circuitos eletrônicos. Elas respondem a condições sutis e transitórias como gravidade, calor, umidade e magnetismo, funcionando como pequenos ecossistemas orgânicos cujas características mudariam com o ar, a poeira ou a temperatura ambiente.

A exposição em Santander reúne trabalhos que datam desde 2000, oferecendo um panorama da evolução da artista. Mohri constantemente intervém e adapta suas obras ao longo do tempo e para cada novo contexto, abraçando o erro, a improvisação e a retroalimentação como pilares de seu processo criativo.

“Entrelaçamentos” visa destacar as complexas interações entre objetos, sons e pessoas, bem como entre o natural e o artificial. Essas relações dinâmicas também refletem a influência da filosofia e da iconografia da pop art na obra da artista.

Cada criação de Mohri parte de um elemento que age como força motriz, propiciando um circuito dinâmico. Um exemplo notável é “Flutter” (2018), cujo ponto focal é um aquário com sensores que capturam a luz e as sombras geradas naturalmente pelo movimento dos peixes e plantas aquáticas. Esses movimentos, por sua vez, desencadeiam outros interdependentes, formando uma peça que dialoga com os experimentos sonoros de John Cage e os videográficos de Nam June Paik.

A mostra também inclui “Piano Solo: Belle-Île”, uma peça centrada em um piano modificado e programado para tocar “solo”. Concebida durante a pandemia, quando a artista não podia colaborar com músicos, Mohri retirou-se para uma floresta para gravar sons ambientais (pássaros, um riacho, o vento). O piano, de forma autônoma, os traduz em uma composição musical. Para a exposição em Santander, Mohri gravou o litoral local e seus sons, evocando a “música de mobiliário” de Satie, onde os sons se integram ao ambiente sem exigir escuta ativa, questionando as convenções da música de concerto.

Outra obra presente é “You Locked Me Up in a Grave, You Owe Me at Least the Peace of a Grave” (2018), uma instalação imersiva que conjuga som, luz e movimento para gerar uma coreografia. Uma escada em espiral suspensa e giratória, escultural e dinâmica ao mesmo tempo, remete a um planeta girando sobre seu eixo, cercada por quatro alto-falantes que distorcem e amplificam o som. O título corresponde a palavras proferidas pelo revolucionário francês Louis-Auguste Blanqui, cuja obra filosófica sobre a circularidade ressoa fortemente com os processos artísticos de Mohri.

As obras “Decomposition” e “Moré Moré (Leaky)”, selecionadas para a Bienal de Veneza e ainda em curso, também estão expostas. “Decomposition” aborda a decomposição orgânica, transformando-a em um sistema vivo de som e luz: frutas em deterioração são conectadas a dispositivos eletrônicos por meio de eletrodos, e, à medida que apodrecem e perdem água, geram eletricidade que ativa composições sonoras e controla a luz. Essas composições variam conforme o nível de deterioração e hidratação, criando sinais audíveis e visíveis da natureza mutável da obra. Amplificadores, alto-falantes e móveis de época completam a instalação, sugerindo uma atmosfera de naturezas-mortas renascentistas.

“Moré Moré (Leaky): Variations” teve origem em uma série fotográfica que registrava soluções provisórias adotadas por trabalhadores do metrô de Tóquio para conter vazamentos de água. Essas imagens inspiraram Mohri a criar obras cinéticas utilizando objetos domésticos, como guarda-chuvas e panelas, reelaborados com sua paixão pelo “faça você mesmo”.

O percurso da exposição culmina com “I/O”, uma de suas obras iniciais, cujo título remete aos termos “input” e “output”. A instalação apresenta um ecossistema orgânico cujo movimento e formas são consequência das características aleatórias do espaço expositivo do Centro Botín. Rolos de papel suspensos tocam o chão, coletando poeira que é lida por um scanner. Este dispositivo, por sua vez, traduz a poeira em sinais elétricos que ativam lâmpadas, ferramentas e instrumentos. Com “I/O”, Mohri transforma nossos resíduos em melodia e luz, num exercício criativo de economia circular.